Uma História de Amor – Claude Steiner, em livro de Roberto Shinyashiki

Neste conto, Claude Steiner, com muita sabedoria e ternura, sintetiza muitas idéias sobre carícia.
Era uma vez, há muito tempo, um casal feliz, Antonio e Mara, com dois filhos chamados João e Lúcia. Para entender a felicidade deles, é preciso retroceder àquele tempo.

Cada pessoa, quando nascia, ganhava um saquinho de carinhos. Sempre que uma pessoa punha a mão no saquinho podia tirar um Carinho Quente. Os Carinhos Quentes faziam as pessoas sentirem-se quentes e aconchegantes, cheias de carinho. As pessoas que não recebiam os Carinhos Quentes expunham-se ao perigo de pegar uma doença nas costas que as faziam murchar e morrer.

Era fácil receber carinhos quentes. Sempre que alguém os queria, bastava pedi-los. Colocando-se a mão no saquinho surgia um carinho do tamanho da mão da criança. Ao vir à luz o carinho se expandia e se transformava em um grande Carinho Quente que podia ser colocado no ombro, na cabeça, no colo da pessoa. Então misturava-se com a pele e a pessoa sentia-se toda bem.

As pessoas viviam pedindo Carinhos Quentes umas às outras e nunca havia problemas para consegui-lo, pois eram dados de graça. Por isso todos eram felizes e cheios de carinho, na maior parte do tempo.
Um dia uma bruxa má ficou brava porque as pessoas, sendo felizes, não compravam as poções e ungüentos que ela vendia. Por ser muito esperta, a bruxa inventou um plano muito malvado. Certa manhã ela chegou perto de Antonio enquanto Maria brincava com a filha e cochichou ao seu ouvido: “Olha Antonio, veja os carinhos que Maria está dando a Lúcia. Se ela continuar assim vai consumir todos os carinhos e não sobrará nenhum para você”.
Antonio ficou admirado e perguntou: “Quer dizer que não é para sempre que existe Carinho Quente na sacola?”
E a bruxa respondeu: “Eles podem se acabar e você não ganhará mais”. Dizendo isso a bruxa foi embora montada na sua vassoura, gargalhando muito.

Antonio ficou preocupado e começou a reparar cada vez que Maria dava um Carinho Quente para outra pessoa, pois temia perdê-los. Então passou a queixar-se a Maria, de quem gostava muito, e Antonio também parou de dar carinho aos outros, reservando só para ela.

As crianças perceberam e passaram também a economizar carinhos, pois entenderam que era errado dá-los. Todos ficaram cada vez mais mesquinhos.

As pessoas do lugar começaram a sentir-se menos quentes e acarinhados e alguns chegaram a morrer por falta de Carinhos Quentes. Cada vez mais gente ia a bruxa para conseguir ungüentos e poções. Mas a bruxa não queria realmente que as pessoas morressem porquê se isso ocorresse, deixariam de comprar poções e ungüentos: inventou um novo plano. Todos ganhavam saquinhos que eram muito parecidos com o saquinho de Carinhos, porém era frio e continha Espinhos Frios. Os espinhos frios faziam as pessoas sentirem-se frias e espetadas, mas evitava que murchassem.

Daí para frente, sempre alguém dizia: “Eu quero um Carinho Quente”, aqueles que tinham medo de perder o suprimento respondiam: “Não posso lhe dar um Carinho Quente, mas se você quiser, posso lhe dar um Espinho Frio”.

A situação ficou muito complicada porque, desde a vinda da bruxa havia menos Carinhos Quentes para se achar e estes se tornaram valiosíssimos. Isto fez com que as pessoas tentassem de tudo para consegui-los.
Antes da bruxa chegar as pessoas costumavam se reunir em grupo de três, quatro, cinco sem se preocuparem com quem dava carinho para quem. Depois que a bruxa apareceu, as pessoas começaram a se juntar aos pares, e a reservar todos os seus carinhos exclusivamente para o parceiro. Quando se esqueciam e davam um carinho quente para outra pessoa, logo se sentiam culpadas. As pessoas que não conseguiam encontrar parceiros generosos precisavam trabalhar muito para conseguir dinheiro para comprá-los.

Outras pessoas se tornavam simpáticas e recebiam muitos Carinhos Quentes sem ter que retribuí-los. Então passavam a vendê-los aos que precisavam deles para sobreviver. Outras pessoas, ainda , pegavam os espinhos frios, que eram ilimitados e de graça, cobriam-nos com cobertura branquinha e estufada, fazendo-os passar por Carinhos Quentes.

Eram na verdade carinhos falsos, de plástico, que causavam novas dificuldades. Por exemplo, duas pessoas se juntavam e trocavam entre si, livremente, os seus Carinhos de Plástico. Sentiam-se bem num primeiro momento, mas logo depois sentiam-se mal. Como pensavam que estavam trocando Carinhos Quentes, ficavam confusas.

A situação, portanto, ficou muito grave.

Não fazia muito tempo, uma mulher muito especial chegou ao lugar. Ela nunca tinha ouvido falar da bruxa e não se preocupava que os Carinhos Quentes acabassem. Ela os dava de graça, mesmo quando não eram pedidos. As pessoas do lugar desaprovavam sua atitude porque essa mulher dava às crianças a idéia de que não deviam se preocupar com que os Carinhos Quentes acabassem, e a chamavam de Pessoa Especial porque se sentiam bem em sua presença e passaram a dar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade.

Os adultos ficaram muito preocupados e decidiram impor uma lei para proteger as crianças do desperdício dos seus Carinhos Quentes. A lei dizia que era crime distribuir Carinhos Quentes sem uma licença. Muitas crianças, porém, apesar da lei, continuavam a trocar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade ou alguém os pedia. Como existiam muitas crianças, parecia que elas prosseguiam o seu caminho.

Ainda não sabemos dizer o que acontecerá. As forças da lei e da ordem dos adultos forçarão as crianças a parar com sua imprudência? Os adultos se juntarão à Pessoa Especial e às crianças e entenderão que sempre haverá Carinhos Quentes, tantos quantos forem necessários? Lembrar-se-ão dos dias que os Carinhos Quentes eram inesgotáveis porque eram distribuídos livremente?

Em que lado você está?
O que você pensa disto?

Texto retirado de : Shinyashiki, Roberto. A carícia essencial, Uma Estória de carinhos, S.Paulo, Ed.Gente, 1988.

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4 comentários Adicione o seu

  1. DOUGLAS disse:

    a muito tempo atraz quando ouvi pela primeira vez esta fabula, achei que que os carinhos quente ficariam presentes em minha vida(e em meu grupo de amigo) para sempre. e não sei em que parte da vida essa bruxa entrou em nossas vidas,e consegui transformar os carinhos quentes em carinhos frio nós que acreditavos tanto em carinhos quentes.

    1. Arnaldo disse:

      Douglas, receba nosso abraço, e que aqueça seu coração o suficiente para você se redescobrir. O calor é a maior marca do coração humano, e ele está aí dentro do seu peito.

  2. Aline Cantelli disse:

    Muito Legal. Parabéns!

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