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Árvore dos Desejos

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No conceito indiano (védico), o Paraíso é composto por árvores-dos-desejos, as quais basta você sentar debaixo e desejar qualquer coisa para que
imediatamente se realize, sem que haja intervalo entre o desejo e a realização.

Uma vez, um homem estava viajando e, acidentalmente, sentou-se embaixo de uma dessas árvores-dos-desejos.

Sem saber do conceito acima e domado pelo cansaço, ele pegou no sono .

Quando despertou estava com muita fome, então disse:

- Estou com tanta fome que desejaria poder conseguir alguma comida em algum lugar.

E imediatamente apareceu comida, vinda do nada, simplesmente uma
deliciosa comida, flutuando no ar.

Ele estava tão faminto que não prestou atenção de onde viera a comida.

Começou a comê-la assim que a viu. Somente depois que a fome desapareceu é que voltou a olhar ao redor, já satisfeito.

Outro pensamento seguiu em sua mente:

- Se ao menos conseguisse algo para beber…

E, imediatamente apareceu à ele excelentes sucos e néctares. Bebendo e relaxando na brisa fresca , sob a sombra da árvore, começou a pensar:

- O que está acontecendo? O que está havendo? Estou sonhando ou existem
espíritos ao meu redor que estão fazendo truques comigo?

E espíritos apareceram. E eram ferozes, horríveis, nauseantes. Ele começou a tremer e um pensamento seguiu em sua mente:

- Agora vou ser assassinado, com certeza.

BUM!!!…E assim aconteceu…

Esta parábola tem apenas um significado: sua mente é a
árvore-dos-desejos, e o que você pensa, mais cedo ou mais tarde, há de se
realizar.

Ás vezes o intervalo entre o pensamento e o acontecimento é tão grande
que nos esquecemos completamente que, de alguma maneira, desejamos o
ocorrido.

Mas, se olharmos profundamente, perceberemos que todos os nossos
pensamentos, medos e receios é que estão criando nossas vidas.

Eles criam nosso inferno ou nosso paraíso; criam nosso tormento ou nossa
alegria; o negativo ou o positivo.

Todos nós somos “mágicos”. E todos estamos fiando e tecendo um mundo
ao nosso redor, sem mesmo tomarmos conta disso.

Sua vida está em suas mãos. Você pode dar a volta por cima, pode
transformar seu inferno em paraíso.

A responsabilidade é toda sua. Seu paraíso depende somente de você!

*   *   *

Publicado originalmente no site Calor Humano, entre 1999 e 2004.

O Copo de Leite

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Um dia, um rapaz pobre que vendia mercadorias de porta em porta para
pagar seus estudos, viu que só lhe restava uma simples moeda de dez
centavos e tinha fome.

Decidiu que pediria comida na próxima casa. Porém, seus nervos o
traíram quando uma encantadora mulher jovem lhe abriu a porta. Em vez de
comida, pediu um copo de água.

Ela achou que o jovem parecia faminto e assim lhe deu um grande copo de
leite. Ele bebeu devagar e depois lhe perguntou:

- Quanto lhe devo?
- Não me deves nada – respondeu ela. E continuou:
- Minha mãe sempre nos ensinou a nunca aceitar pagamento por uma
oferta caridosa.

Ele disse:

- Pois te agradeço de todo coração.
Quando Howard Kelly saiu daquela casa, não só se sentiu mais forte
fisicamente, mas também sua fé em Deus e nos homens ficou mais forte.
Ele já estava resignado a se render e de ixar tudo.
Anos depois, essa jovem mulher ficou gravemente doente. Os médicos
locais estavam confusos. Finalmente a enviaram à cidade grande, onde
chamaram um especialista para estudar sua rara enfermidade.

Chamaram o Dr.Howard Kelly. Quando escutou o nome do povoado de onde ela
viera, uma estranha luz encheu seus olhos.
Imediatamente, vestido com a sua bata de médico, foi ver a paciente.
Reconheceu imediatamente aquela mulher e determinou-se a fazer o
melhor para salvar aquela vida.
Passou a dedicar atenção especial aquela paciente.

Depois de uma demorada luta pela vida da enferma, ganhou a batalha.

O Dr. Kelly pediu a administração do hospital que lhe enviasse a
fatura total dos gastos.Ele conferiu, depois escreveu algo e mandou
entrega-lá no quarto da paciente. Ela tinha medo de abri-la, porque sabia
que levaria o resto da sua vida para pagar todos os gastos.
Finalmente abriu a fatura e algo lhe chamou a atenção, pois
estava escrito o seguinte:

Totalmente pago há muitos anos com um copo de leite (assinado).
Dr.Howard Kelly.

Lágrimas de alegria correram de seus olhos e seu coração feliz rezou
assim: Graças meu Deus porque teu amor se manifestou nas mãos e nos
corações humanos.

O Nó do Afeto

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Em uma reunião de pais numa escola da periferia, a diretora ressaltava o apoio que os pais devem dar aos filhos; pedia-lhes também que se fizessem presentes o máximo de tempo possível…

Ela entendia que, embora a maioria dos pais e mães daquela comunidade trabalhassem fora, deveriam achar um tempinho para se dedicar e entender as crianças. Mas a diretora ficou muito surpresa quando um pai se levantou e explicou, com seu jeito humilde, que ele não tinha tempo de falar com o filho, nem de vê-lo, durante a semana, porque quando ele saía para trabalhar era muito cedo e o filho ainda estava dormindo… Quando voltava do serviço já era muito tarde e o garoto não estava mais acordado.

Explicou, ainda, que tinha de trabalhar assim para prover o sustento da família, mas também contou que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava se redimir indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa.

E, para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria. Isso acontecia religiosamente todas as noites quando ia beijá-lo. Quando o filho acordava e via o nó, sabia, através dele, que o pai tinha estado ali e o havia beijado.

O nó era o meio de comunicação entre eles. A diretora emocionou-se com aquela singela história e ficou surpresa quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola. O fato nos faz refletir sobre as muitas maneiras das pessoas se fazerem presentes, de se comunicarem com os outros.

Aquele pai encontrou a sua, que era simples mas eficiente. E o mais importante é que o filho percebia, através do nó afetivo, o que o pai estava lhe dizendo. Por vezes, nos importamos tanto com a forma de dizer as coisas e esquecemos o principal, que é a comunicação através do sentimento, simples gestos como um beijo e um nó na ponta do lençol, valiam, para
aquele filho, muito mais do que presentes ou desculpas vazias.

É válido que nos preocupemos com as pessoas, mas é importante que elas saibam, que elas sintam isso. Para que haja a comunicação é preciso que as pessoas “ouçam” a linguagem do nosso coração, pois, em matéria de afeto,
os sentimentos sempre falam mais alto que as palavras.

É por essa razão que um beijo, revestido do mais puro afeto, cura a dor de cabeça, o arranhão no joelho, o medo do escuro. As pessoas podem não entender o significado de muitas palavras, mas sabem registrar um gesto de amor. Mesmo que esse gesto seja apenas um nó.

Um nó cheio de afeto e carinho.

Publicado em 1999 no Calor Humano

O Carregador de Água

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Sobre como os defeitos não são defeitos.

Um carregador de água na Índia levava dois potes grandes, ambos pendurados em cada ponta de uma vara a qual ele carregava atravessada sobre seus ombros. Um dos potes tinha uma rachadura, enquanto o outro era perfeito e sempre chegava cheio de agua no fim da longa jornada entre o poço e a casa do seu chefe; o pote rachado chegava apenas pela metade.

Foi assim por dois anos, diariamente, o carregador entregando um pote e meio de agua na casa de seu chefe. Claro, o pote perfeito estava orgulhoso de suas realizacoes.

Porém, o pote rachado estava envergonhado de sua imperfeição, e sentindo-se miseravel por ser capaz de realizar apenas a metade do que ele havia sido designado a fazer. Após perceber que por dois anos havia sido uma falha amarga, o pote falou para o homem um dia a beira do poço.
- “Estou envergonhado, e quero pedir-lhe desculpas.”
- “Por que?” Perguntou o homem. “De que voce esta envergonhado?”
- “Nesses dois anos eu fui capaz de entregar apenas a metade da minha carga, porque esta rachadura no meu lado faz com que a água vaze por todo o caminho ate a casa de seu senhor. Por causa do meu defeito, você tem que fazer todo esse trabalho, e não ganha o salário completo dos seus esforcos,” disse o pote.

O homem ficou triste pela situação do velho pote, e com compaixão falou:
- “Quando retornarmos para a casa de meu senhor, quero que percebas as flores ao longo do caminho.”

De fato, a medida que eles subiam a montanha, o velho pote rachado notou as flores selvagens ao lado do caminho, e isto lhe deu certo animo. Mas ao fim da estrada, o pote ainda se sentia mal porque tinha vazado a metade, e de novo pediu desculpas ao homem por sua falha. Disse o homem ao pote:

- “Você notou que pelo caminho so havia flores no seu lado. Eu, ao conhecer o seu defeito, tirei vantagem dele. E lancei sementes de flores no seu lado do caminho, e cada dia enquanto voltavamos do poço, voce as regava. Por dois anos eu pude colher estas lindas flores para ornamentar a mesa de meu senhor. Sem você ser do jeito que é, ele não poderia ter esta beleza para dar graça a sua casa.”

Autor desconhecido

Publicado originalmente no site Calor Humano, entre 1999 e 2004

Atitude é tudo

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Jerry era o tipo de pessoa que você ia adorar. Sempre de alto astral,
e com algo positivo a dizer.

Quando alguém perguntava para ele: “Como vai você?”, ele respondia:
“Melhor que isso, só dois disso”.

Ele era o único gerente de uma cadeia de restaurantes, porque todos os garçons seguiam seu exemplo.

A razão dos garçons seguirem Jerry era por causa de suas atitudes. Ele era naturalmente motivador.

Se algum empregado estivesse tendo um mau dia, Jerry prontamente estava lá, contando ao empregado como olhar pelo lado positivo da situação.

Sempre que eu me lembrava dele eu ficava pensativo, até que um dia perguntei a ele:
“Eu não acredito. Ninguém pode ser uma pessoa positiva o tempo todo! Como você consegue?”

E ele respondeu:

- Toda manhã eu acordo e digo a mim mesmo: “Jerry, você tem duas escolhas hoje: escolher estar de alto astral ou escolher estar de baixo astral…

Então escolho estar de alto astral. Toda vez que acontece alguma
coisa desagradável, posso escolher ser vítima da situação ou posso escolher
aprender algo com isso. Eu escolho aprender algo com isso.

Todo momento que alguém vem reclamar da vida comigo, eu posso escolher
aceitar a reclamação, ou posso escolher apontar o lado positivo da
vida para a pessoa. Eu escolho apontar o lado positivo da vida.”

Eu argumentei: “Tudo bem! Mas não é tão fácil assim!”,”É fácil sim”
Jerry disse.

“A vida consiste em escolhas. Quando você tira todos os detalhes e
enxuga a situação, o que sobra são escolhas, decisões a serem tomadas. Você
escolhe como reagir as situações. Escolhe como as pessoas irão afetar no seu astral.

Escolhe estar feliz ou triste, calmo ou nervoso… Em suma: É escolha
sua como você vive sua vida.”

Eu refleti no que Jerry disse. Algum tempo depois eu deixei o
restaurante para abrir meu próprio negócio.

Nós perdemos contato, mas freqüentemente eu pensava nele quando tomava
a decisão de viver ao invés e ficar reagindo às coisas.

Alguns anos mais tarde, ouvi dizer que Jerry havia feito algo que nunca
se deve fazer quando trabalha em restaurantes: ele deixou a porta dos
fundos aberta e, seqüentemente, foi rendido por 3 assaltantes armados.

Enquanto Jerry tentava abrir o cofre, sua mão, tremendo de nervoso, errou a combinação do cofre.

Os ladrões entraram em pânico, atiraram nele e fugiram. Por sorte,
Jerry foi encontrado relativamente rápido e foi levado às pressas ao
pronto-socorro local. Depois de 18 horas de cirurgia e algumas semanas de tratamento intensivo, Jerry foi liberado do hospital com alguns fragmentos de balas ainda em seu corpo.

Encontrei com Jerry 6 meses depois do acidente. Quando perguntei:
“Como vai você?” ele respondeu: “Melhor que isso, só dois disso! Quer
ver minhas cicatrizes?”

Enquanto olhava as cicatrizes, perguntei o que passou pela sua mente
quando os ladrões invadiram o restaurante.

“A primeira coisa que me veio à cabeça foi que eu devia ter trancado a
porta dos fundos”, respondeu.

“Então, enquanto estava baleado no chão, lembrei que eu tinha duas
escolhas: podia escolher viver ou podia escolher morrer. Escolhi viver!”

Perguntei: “Você não ficou com medo? Não perdeu os sentidos?” Jerry
continuou:

“Os paramédicos eram ótimos. Ficaram o tempo todo me dizendo que tudo ia dar certo, que tudo ia ficar bem. Mas, quando eles me levaram na maca para a sala de emergência e vi as expressões nos rostos dos médicos e enfermeiras, fiquei com medo. Nos seus olhos eu lia: ‘ele é um homem morto’.

Eu sabia que tinha que fazer alguma coisa.”

“O que você fez?” perguntei. “Bem, havia uma enfermeira grande e forte
me fazendo perguntas. Ela perguntou se eu era alérgico a alguma coisa… ‘Sim’, respondi. Os médicos e enfermeiras pararam imediatamente por causa da minha resposta.

Respirei fundo e disse: ‘Balas!’
Enquanto eles riam eu disse:

‘Eu estou escolhendo viver. Me operem como se estivesse vivo, não morto.”
Jerry sobreviveu graças a experiência e habilidade dos médicos, mas também por causa de sua atitude espetacular.

Aprendi com ele que todos os dias temos que escolher viver a vida em
sua plenitude, viver por completo.

Atitude, portanto, é tudo.

(autor desconhecido)

Publicado originalmente em Calor Humano

O Vento que sopra pelas Flores

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Há vários anos atrás, em Seattle, Washington, vivia um refugiado tibetano de 52 anos de idade. “Tenzin”, é como vou chamá-lo, foi diagnosticado como portador de uma forma de linfoma das mais fáceis de curar. Ele foi internado em um hospital e recebeu a primeira dose de quimioterapia.
Mas durante o tratamento, este homem normalmente gentil tornou-se agressivo e irritado; arrancou a agulha intravenosa de seu braço e negou-se a cooperar.

Ele então gritou com as enfermeiras e discutiu com todos ao seu redor. Os médicos e enfermeiros ficaram desconcertados. Depois, a esposa de Tenzin falou com o pessoal do hospital. Ela contou que Tenzin foi um prisioneiro político dos chineses por 17 anos, eles mataram sua primeira esposa e ele foi repetidamente torturado brutalizado durante todo o tempo em que esteve preso.

As normas e regulamentos do hospital, juntamente com a quimioterapia, fez Tenzin recordar todo o sofrimento que passou nas mãos dos chineses.

“Eu sei que vocês querem ajudá-lo,” ela disse, “mas ele se sente torturado pelo tratamento, eles fazem com que ele sinta ódio internamente – da mesma maneira que os chineses fizeram ele se sentir. Ele prefere morrer do que viver com o ódio que ele está sentindo agora. e, segundo nossas crenças, é muito ruim ter tamanho ódio no coração na hora da morte. Ele precisa estar apto para rezar e limpar seu coração.”

Assim, o médico dispensou Tenzin e recomendou uma equipe da clínica de repouso para visitá-lo em casa. Eu era a enfermeira encarregada de cuidar dele. Eu entrei em contato com um representante da “Anistia Internacional” para pedir-lhe conselhos. Ele me disse que a única forma de sanar o trauma da tortura era “falar a respeito”. “Essa pessoa perdeu sua confiança na humanidade e sente que a esperança é impossível.” Mas quando eu encoragei Tenzin a falar sobre suas experiências, ele ergueu suas mãos e me fez parar.

Ele disse, “Eu preciso aprender a amar de novo se eu quiser curar minha alma. Sua tarefa não é fazer perguntas. Sua tarefa é me ensinar a amar novamente.”

Respirei profundamente e perguntei, “E como eu posso fazê-lo amar de novo?”
Tenzin respondeu prontamente, “Sente-se, tome meu chá e coma meus biscoitos.” O chá tibetano é um chá preto forte, coberto com manteiga de iaque e sal. Não é fácil de bebê-lo! Mas, foi o que eu fiz.

Por várias semanas, Tenzin, sua mulher e eu nos sentamos juntos e tomamos chá. Nós também conversamos com os médicos para achar formas de tratar suas dores físicas. Mas era sua dor espiritual que deveria ser diminuída. Cada vez que eu chegava, via Tenzin sentado de pernas cruzadas em sua cama, recitando preces de seus livros. Com o passar do tempo, sua mulher foi pendurando mais e mais ‘thankas’, bandeirolas budistas coloridas, nas paredes.

Em pouco tempo, o quarto parecia um colorido templo religioso. Na chegada da primavera, eu perguntei o que os tibetanos faziam quando estavam doentes na primavera. Ele abriu um grande sorriso e disse, “Nós nos sentamos e aspiramos o vento que sopra pelas flores.” Eu pensei que ele estava falando poeticamente, mas suas suas palavras eram literais.

Ele explicou que os tibetanos fazem isso para serem pulverizados com o pólen das novas floradas, carregadas pela brisa. Eles acreditam que esse pólen é um potente medicamento. No primeiro momento, achar muitas floradas parecia um pouco difícil.

Mas, um amigo sugeriu que Tenzin visitasse algumas floriculturas locais. Eu liguei para o gerente de uma floricultura e expliquei-lhe a situação.

Sua reação inicial foi “Você quer o quê???” Mas quando eu expliquei melhor o meu pedido, ele concordou.
Então, no final-de-semana seguinte, eu busquei Tenzin, sua esposa e suas provisões para a tarde: chá preto, manteiga, sal, xícaras, biscoitos,almofadas e livros de preces. Eu os deixei na floricultura e combinei de pegá-los às 17 horas. No outro final-de-semana, visitamos uma outra floricultura. E mais outra no terceiro fim-de-semana.

Na quarta semana, eu comecei a receber convites das floriculturas para Tenzin e sua mulher para voltarem novamente. Um dos gerentes disse, “Nós temos uma nova remessa de nicotianas e lindas fuchsias.ah, sim! E temos belas dafnias. Eu sei que eles vão adorar o perfume das dafnias! E eu quase me esqueci! Temos uns novos bancos de jardim que Tenzin e sua esposa vão adorar!” No mesmo dia, outra floricultura ligou dizendo que eles tinham recebido birutas coloridas para Tenzin saber de que direção o vento estava soprando.

Logo, as floriculturas estavam competindo pelas visitas de Tenzin. As pessoas começaram a se importar com o casal tibetano.

Os empregados arrumavam os móveis de frente para o vento. Outros traziam água quente para o chá. Alguns fregueses regulares deixavam seus carrinhos de compras próximos do casal. E no final do verão, Tenzin voltou ao seu médico para novos exames e determinar o desenvolvimento da doença. Mas o doutor não achou nenhuma evidência de câncer. Ele estava abobalhado; disse à Tenzin que ele simplesmente não sabia explicar aquilo.

Tenzin levantou seu dedo e disse, “Eu sei porque o câncer se foi. Ele não podia mais viver num corpo tão cheio de amor. Quando eu comecei a sentir a compaixão das pessoas da clínica, dos empregados das floriculturas, e todas essas pessoas que queriam saber de mim, eu comecei a mudar por dentro. Agora, eu me sinto afortunado por ter a oportunidade de ser curado dessa forma. Doutor, por favor, não acredite que a sua medicina é a única cura. Às vezes, a compaixão pode também curar um câncer.

Lee Paton

Telefone

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Quando eu era criança, bem novinho, meu pai comprou o primeiro telefone da nossa vizinhança. Eu ainda me lembro daquele aparelho preto e brilhante que ficava na cômoda da sala. Eu era muito pequeno para alcançar o telefone, mas ficava ouvindo fascinado enquanto minha mãe falava com alguém.
Então, um dia eu descobri que dentro daquele objeto maravilhoso morava uma pessoa legal !! O nome dela era “Uma informação, por favor” e não havia nada que ela não soubesse. “Uma informação, por favor” poderia fornecer qualquer número de telefone e até a hora certa. Minha primeira experiência pessoal com esse gênio-na-garrafa veio num dia em que minha mãe estava fora, na casa de um vizinho.

Eu estava na garagem mexendo na caixa de ferramentas quando bati em meu dedo com um martelo. A dor era terrível mas não havia motivo para chorar, uma vez que não tinha ninguém em casa para me oferecer a sua simpatia.

Eu andava pela casa, chupando o dedo dolorido até que pensei: O telefone! Rapidamente fui até o porão, peguei uma pequena escada que coloquei em frente à cômoda da sala. Subi na escada, tirei o fone do gancho e segurei contra o ouvido. Alguém atendeu e eu disse: “Uma informação, por favor”. Ouvi uns dois ou três cliques e uma voz suave e nítida falou em meu ouvido:
- “Informações.”
- “Eu machuquei meu dedo…”, disse, e as lágrimas vieram facilmente, agora que eu tinha audiência.
-”A sua mãe não está em casa?”, ela perguntou.
-”Não tem ninguém aqui…”, eu soluçava.
-”Está sangrando?”
-”Não”, respondi. “Eu machuquei o dedo com o martelo, mas tá
doendo…”
-”Você consegue abrir o congelador?”, ela perguntou.
Eu respondi que sim.
-”Então pegue um cubo de gelo e passe no seu dedo”, disse a voz.
Depois daquele dia, eu ligava para “Uma informação, por favor” por qualquer motivo. Ela me ajudou com as minhas dúvidas de geografia e me ensinou onde ficava a Philadelphia. Ela me ajudou com os exercícios ensinou que o pequeno esquilo que eu trouxe do bosque deveria comer nozes e frutinhas.

Então, um dia, Petey, meu canário, morreu. Eu liguei para “Uma
informação, por favor” e contei o ocorrido. Ela escutou e começou a falar aquelas coisas que se dizem para uma criança que está crescendo. Mas eu estava inconsolável. Eu perguntava:
-”Por que é que os passarinhos cantam tão lindamente e trazem tanta alegria pra gente para, no fim, acabar como um monte de penas no fundo de uma gaiola?”

Ela deve ter compreendido a minha preocupação, porque acrescentou mansamente:
-”Paul, sempre lembre que existem outros mundos onde a gente pode cantar também…”

De alguma maneira, depois disso eu me senti melhor. No outro
dia, lá estava eu de novo. “Informações.”, disse a voz já tão
familiar.
-”Você sabe como se escreve ‘exceção’?”
Tudo isso aconteceu na minha cidade natal ao norte do Pacífico.
Quando eu tinha 9 anos, nós nos mudamos para Boston. Eu sentia muita falta da minha amiga. “Uma informação, por favor” pertencia àquele velho aparelho telefônico preto e eu não sentia nenhuma atração pelo nosso novo aparelho telefônico branquinho que ficava na nova cômoda na nova sala.

Conforme eu crescia, as lembranças daquelas conversas infantis nunca saíam da minha memória. Freqüentemente, em momentos de dúvida ou perplexidade, eu tentava recuperar o sentimento calmo de segurança que eu tinha naquele tempo.

Hoje eu entendo como ela era paciente, compreensiva e gentil ao perder tempo atendendo as ligações de um molequinho. Alguns anos depois, quando estava indo para a faculdade, meu avião teve uma escala em Seattle. Eu teria mais ou menos meia hora entre os dois vôos. Falei ao telefone com minha irmã, que morava lá, por 15 minutos. Então, sem nem mesmo sentir que estava
fazendo isso, disquei o número da operadora daquela minha cidade natal e pedi: “Uma informação, por favor.”

Como num milagre, eu ouvi a mesma voz doce e clara que conhecia tão bem, dizendo “Uma informação, por favor” Eu não tinha planejado isso, mas me peguei perguntando:
- “Você sabe como se escreve ‘exceção’?” Houve uma longa pausa. Então, veio uma resposta suave:
-”Eu acho que o seu dedo já melhorou, Paul.”
Eu ri. “Então, é você mesma!”, eu disse. “Você não imagina como era importante para mim naquele tempo.”
“Eu imagino”, ela disse. “E você não sabe o quanto significavam para mim aquelas ligações. Eu não tenho filhos e ficava esperando todos os dias que você ligasse.” Eu contei para ela o quanto pensei nela todos esses anos e perguntei se poderia visitá-la quando fosse encontrar a minha irmã.
-”É claro!”, ela respondeu. “Venha até aqui e chame a Sally.”
Três meses depois eu fui a Seattle visitar minha irmã.
Quando liguei, uma voz diferente respondeu :
-”Informações.” Eu pedi para chamar a Sally.
-”Você é amigo dela?”, a voz perguntou.
-”Sou, um velho amigo. O meu nome é Paul.”
-”Eu sinto muito, mas a Sally estava trabalhando aqui apenas meio
período porque estava doente. Infelizmente, ela morreu há cinco
semanas.”
Antes que eu pudesse desligar, a voz perguntou:
-”Espere um pouco. Você disse que o seu nome é Paul?”
-”Sim.”
-”A Sally deixou uma mensagem para você. Ela escreveu e pediu para eu guardar caso você ligasse. Eu vou ler pra você.”
A mensagem dizia: -”Diga a ele que eu ainda acredito que existem outros mundos onde a gente pode cantar também.
Ele vai entender.”

Eu agradeci e desliguei. Eu entendi…

NUNCA SUBESTIME A “MARCA” QUE VOCÊ DEIXA NOS OUTROS!!!

colaborou Altamiro Carvalho, publicado originalmente no site Calor Humano em 2004.

Os 4 Pensamentos (texto do lama budista Chagdud Tulku Rinpoche)

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Publicado originalmente em Calor Humano


A Importância dos Quatro Pensamentos

A contemplação dos quatro pensamentos está entre os métodos hábeis que utilizamos para reduzir os venenos da mente e criar benefícios de curto e longo prazo, para nós mesmos e para os outros. Já que não temos a boa fortuna de encontrar o Buda Shakyamuni e aprender diretamente com ele os métodos que conduzem à liberação, é o lama, nosso professor espiritual, quem nos introduz a esses ensinamentos. Porém, antes que passemos a confiar num mestre espiritual, é essencial que pesquisemos cuidadosamente as suas qualidades, do mesmo modo que iríamos investigar as qualificações de um médico, antes de colocar nossa vida nas mãos dele. Num certo sentido, se deixássemos de investigar um médico, isso não seria tão grave, pois um tratamento inadequado poderia nos levar a perder apenas esta vida presente.
No entanto, se depositarmos nossa fé em um mestre espiritual que não seja qualificado, poderemos desenvolver hábitos contraproducentes que talvez permaneçam conosco por muitas vidas futuras, criando enormes obstáculos ao caminho da iluminação.
Duas qualidades são necessárias a um professor: primeiro, que ele tenha ouvido, contemplado e compreendido os ensinamentos, e, segundo, que ele tenha meditado sobre os ensinamentos e tenha ganho realização de seu significado essencial. A eloqüência não é a qualidade mais importante de um mestre do darma, pois não é tão difícil assim alguém apresentar um discurso vistoso; o crucial é que, através de uma prática autêntica e profunda de meditação, ele ou ela, pessoalmente, mantenha uma experiência direta dos ensinamentos. Caso contrário, o professor será como um papagaio que repete sem parar, “Pratiquem a virtude; afastem-se da não-virtude”, mas que devora um inseto, assim que entra em sua gaiola.
Hoje em dia é difícil verificarmos as qualidades de um professor. Pelo menos uma dentre dez ou vinte pessoas alega ser um mestre com uma bagagem de grande estudo ou realização meditativa. Ninguém pendura uma placa declarando, “Eu sou um mestre ruim.” O ideal seria descobrirmos, de uma fonte externa, como e onde o professor estudou o darma e praticou meditação.
Porém, é mais importante, ainda, observarmos o professor de perto, verificarmos cuidadosamente se ele possui um bom coração e, de fato, vive os ensinamentos. Seria difícil encontrarmos um professor totalmente isento de defeitos — e, mesmo que o encontrássemos, não nos daríamos conta desse fato. Apesar disso, podemos confiar em um lama que, pela prática da meditação, tenha removido em alguma medida os obscurecimentos da mente, alcançado algum grau de realização e desenvolvido grande compaixão. Os professores de bom coração têm em mente os interesses de seus alunos, não os seus próprios interesses. Se não conseguem responder uma pergunta ou ajudar um aluno, irão encaminhá-lo a alguém que possa fazer isso. Eles não o conduzirão por um caminho errado. É arriscado fazer um compromisso apressado demais com um mestre. Porém, uma vez que você tenha chegado a uma decisão cuidadosamente ponderada, deve seguir os ensinamentos de seu professor com diligência e senso de propósito. Usando novamente o exemplo do médico, se você está doente mas não toma a medicação que seu médico prescreve, não irá melhorar. Portanto, após procurar o professor com habilidade, você deve ouvir e se treinar com igual habilidade. Se você cuidadosamente aplicar as instruções que tiver recebido, então, lentamente, sua negatividade diminuirá, e amor e compaixão crescerão. Assim, você aprenderá o que o professor tiver aprendido. O professor é como um molde que dá forma à mente do aluno. Um aluno não conseguirá desenvolver boas qualidades diante de um mau professor, mas irá infalivelmente se beneficiar ao seguir as instrução de um bom professor.
Por essa razão, no começo da nossa contemplação dos quatro pensamentos, invocamos o lama. Nós nos recordamos das qualidades do lama e rogamos para que, pela força das suas bênçãos, os obstáculos à nossa prática se dissipem, a nossa mente volte-se para o darma e a porta da liberação se abra para nós.

1 O Nascimento Humano Precioso
Imagine que você seja muito pobre e, de repente, veja-se em uma terra onde tudo é incrustado de pedras preciosas, ouro e moedas. Você vive nesse lugar por muitos anos mas um dia tem que voltar para casa, fazendo uma viajem perigosa pelo mar, sem nenhuma possibilidade de retornar àquela terra de tesouros. Ao chegar em casa, você se dá conta de que não lhe ocorreu trazer coisa alguma consigo, nem uma única jóia, nem um grão de ouro, nada; pense qual seria seu arrependimento! Da mesma forma, nós passamos de uma vida para outra, dentro dos ciclos de sofrimento, carentes do mérito — da virtude e energia positiva – necessário para nos impulsionar para fora do samsara. Então, umas poucas e raras condições se reúnem para produzir esta existência humana preciosa, com sua imensa oportunidade. Se morrermos sem tirar pleno proveito dela, teremos deixado o reino humano de mãos vazias, sem nada ter realizado. O primeiro pensamento que volta a mente para o darma trata da preciosidade do nosso nascimento humano e da importância de fazermos bom uso dele. As pessoas às vezes se perguntam, “Por que eu nasci? Qual é o propósito desta vida humana? Tenho a sensação de que há um grande motivo para eu estar aqui, mas não sei qual é.” Alguns pensam que seu propósito é tornar-se um excelente músico ou escrever livros excepcionais. No entanto, qualquer música tocada, qualquer escrito é impermanente. Não compreendemos que a nossa mente é um sonhador, e as nossas experiências na vida o sonho que ele criou. Pelo fato de não termos idéia alguma de que estamos sonhando, tomamos a vida muito a sério, e freqüentemente nos sentimos impotentes quando as coisas não saem como desejamos. Através da prática espiritual, podemos, pelo menos, criar sonhos felizes. Em algum momento, poderemos de fato acordar. Acordar, revelar a essência da nossa existência, é a meta maior da nossa vida, que a tudo se sobrepõe. Mas o que é essa essência? Não pode ser o nosso corpo, já que tudo o que sobra quando a mente deixa o corpo é um cadáver. Nem pode ser a faculdade da fala, já que é simplesmente uma função do corpo. E não é, tampouco, as oscilações superficiais das emoções, o contínuo sobe e desce de esperanças e medos, de gostos e aversões, nem a atividade da mente que, como uma pulga saltitante ou uma pipoca, está sempre se movimentando e mudando. Para encontrarmos a essência, temos que compreender a verdadeira natureza do nosso corpo, fala e mente, além da experiência de realidade que temos, que é como um sonho. A capacidade de fazer isso é encontrada apenas no nascimento humano precioso.
Não podemos supor que, tendo sido humanos uma vez, teremos a garantia de uma existência humana vez após vez. Um corpo humano é muito difícil de se conseguir. Exige a acumulação de uma vasta quantidade de mérito, através de disciplina escrupulosamente pura, em vidas passadas. Disciplina desse tipo implica três coisas: abstenção da prática de atos negativos ou de comportamento que possa causar mal; o cultivo de pensamentos e ações virtuosos; e o desejo altruísta de beneficiar os outros, como a motivação para seguir as duas primeiras disciplinas. É somente porque amealhamos toda essa quantidade de mérito, acompanhada da aspiração de renascermos como seres humanos, que nos encontramos agora no reino humano.
O nascimento humano precioso proporciona liberdade e oportunidade para prática que não podem ser encontradas nos demais reinos da experiência, quer sejam os três reinos inferiores — o reino dos infernos, dos fantasmas famintos e dos animais — com seu imenso sofrimento, quer sejam os reinos superiores não-humanos — o reino dos deuses mundanos e o dos deuses invejosos ou semideuses –, com sua satisfação enganosa. Quando dizemos “nascimento humano precioso”, não estamos nos referindo a uma existência humana apenas no nome, em que uma pessoa nasce, vive, morre e depois sua consciência segue para alguma outra experiência. O renascimento humano é precioso somente quando dotado de oito tipos de oportunidade e de dez qualidades e condições.
Os três reinos inferiores não permitem oportunidade alguma para se ouvir ou compreender os ensinamentos do darma. Os seres que aí vivem não têm disponibilidade nem quaisquer outras circunstâncias favoráveis que os apóiem ou encorajem em sua prática: eles vivenciam sofrimento por demais intenso. Por outro lado, os reinos dos deuses não oferecem incentivo algum à prática. Os seres desses reinos estão tão enamorados e inebriados com prazeres sensoriais e felicidade plena que o pensamento de escapar desse ou de qualquer outro estado da existência cíclica nunca lhes ocorre. Nesses reinos não há nem incentivo nem oportunidade para se buscar liberação dos ciclos de sofrimento do samsara. No reino humano, porém, provamos tanto do doce quanto do amargo. Conhecemos o suficiente sobre o sofrimento para querermos mudar; todavia, o sofrimento não é tão agudo a ponto de nada podermos fazer a respeito dele.
Ainda assim, há quatro tipos de existência humana onde falta disponibilidade suficiente para prática. Em primeiro lugar, pode-se nascer em uma cultura dominada por visões equivocadas — a idéia de que matar ou ferir os outros é algo virtuoso ou espiritual, por exemplo. Em segundo lugar, pode-se nascer descrente quanto à espiritualidade ou religião. Mera sofisticação intelectual ou aprendizado acadêmico não capacita alguém a adquirir ou manter fé espiritual. Pessoas inteligentes, mas céticas, têm dificuldade em depositar confiança no que quer que seja e, assim, não possuem a abertura e receptividade necessárias para procurar uma prática espiritual. Em terceiro lugar, pode-se nascer numa era de trevas — uma era em que nenhum Buda se manifesta no reino humano, sob forma alguma, para oferecer ensinamentos budistas ou qualquer outro ensinamento espiritual benéfico. Por fim, é possível que uma pessoa sofra de deficiência física ou mental que a impossibilite de ouvir ou compreender os ensinamentos.
Precisamos nos dar conta do privilégio incrível de que desfrutamos por não termos nascido em qualquer dessas situações. Nosso nascimento humano precioso nos oferece enorme liberdade para praticarmos. Ele também nos confere dez qualidades e condições especiais, cinco das quais estão ligadas a quem somos, e cinco às nossas circunstâncias externas.
As cinco primeiras qualidades incluem o nosso próprio corpo humano, que pode ser um veículo para a iluminação; nosso nascimento em uma região onde os ensinamentos estão disponíveis e não num “país longínquo”, onde a influência do darma ou de outros ensinamentos espirituais puros não chegou; o fato de que nossas faculdades são intactas e nossa inteligência suficiente para compreendermos os ensinamentos; a predisposição cármica para nos desenvolvermos espiritualmente, em vez de desperdiçarmos esta oportunidade ou usarmos nossa vida para causarmos mal aos outros; e a receptividade ao caminho budista ou a outras tradições espirituais que propiciem benefícios em termos mais imediatos e também a longo prazo, para nós mesmos e para os outros. A primeira das cinco condições pertinentes às nossas circunstâncias externas é que um Buda de fato apareceu. Caso tivéssemos nascido em um universo em que nenhum Buda houvesse se manifestado, a questão da liberação sequer se proporia, porque não teríamos um exemplo histórico. Ao alcançar a iluminação em nosso reino e demonstrar que isso pode ser feito, o Buda Shakyamuni ofereceu-nos uma oportunidade extraordinária.
A segunda condição é que, ao aparecer, o Buda ensinou o darma. Embora pudéssemos ter o exemplo histórico do Buda, sem seus ensinamentos não haveria estrada alguma a ser seguida.
A tradição dos ensinamentos que foi preservada e transmitida ao longo da história consiste na terceira condição. Novamente aqui, um Buda pode aparecer e ensinar durante uma determinada geração, e os seres podem se beneficiar com isso, mas os ensinamentos podem vir a se perder ou gradualmente se extinguir. Em nosso caso, os ensinamentos do budismo persistiram até os dias de hoje. A quarta condição decorre da presença de praticantes que alcançaram realização dos ensinamentos e representam a possibilidade de sua transmissão de forma viva. Através de seu exemplo, os ensinamentos tornam-se acessíveis a nós.
Por fim, devido à bondade e compaixão do lama, da disposição desse homem ou mulher para ensinar e ter contato com outras pessoas, em vez de praticar solitariamente, nós próprios temos condição de aprender, praticar e ter a realização dos ensinamentos. Se não desfrutássemos de todas essas dezoito oportunidades e condições, não poderíamos nem mesmo falar sobre o primeiro dos quatro pensamentos. Não poderíamos nunca preencher o verdadeiro propósito da nossa existência humana preciosa, nunca alcançar a meta de dissolver o sofrimento e criar felicidade para nós mesmos e para os outros, em sentido tanto temporário quanto último.
Ao contemplarmos repetidas vezes o valor da nossa existência humana preciosa, passamos a enxergar que esse nascimento é melhor do que uma jóia mágica que realiza desejos. Há muitas histórias de pessoas que enfrentaram enormes dificuldades, viajando longas distâncias e suportando todos os tipos de agruras e situações ameaçadoras para conquistar uma jóia assim; no entanto, ao final de sua busca, o que conseguiram? O poder mágico da jóia pode torná-las ricas por algum tempo, ou encontrar-lhes um parceiro encantador ou fazer surgir uma mansão. Essas coisas, porém, duram apenas por um determinado período. A jóia não é capaz de produzir a iluminação. Com o uso hábil da nossa existência humana, não só podemos criar benefícios de curto prazo, como também podemos alcançar liberação do samsara e adquirir a capacidade de ajudarmos os outros a fazer o mesmo. A raridade da nossa existência humana fica muito clara quando comparamos o número de seres do reino humano com o número de seres nos outros cinco reinos. Tradicionalmente, diz-se que os seres dos infernos são tão incontáveis quanto as partículas de pó que existem no universo todo. Dos fantasmas famintos, em número ligeiramente menor, diz-se que são tão numerosos quanto os grãos de areia do rio Ganges. Quanto à vida animal, não há sequer um canto de terra ou gota de mar que não esteja pululando com ela — assim como um recipiente para fazer bebida alcoólica transborda com grãos de cereal. O número de seres no reino dos semideuses pode ser comparado ao número de flocos de neve em uma nevasca; o número de seres nos reinos humano e dos deuses mundanos, pode ser comparado ao número de partículas de pó que cabem sobre o unha de um polegar. Aqueles dotados de um nascimento humano precioso, a aspiração elevada de libertar todos os seres do sofrimento, são tão raros quanto estrelas no céu do meio-dia. O Buda ilustrou a raridade do nascimento humano precioso com uma metáfora em que comparou todo o universo, em suas três mil dimensões, a um enorme oceano sobre o qual bóia, em algum ponto, um aro de madeira. O aro é constantemente tangido pelo vento, ondas e correntes. No fundo do oceano vive uma tartaruga cega. Uma vez a cada cem anos ela sobe à superfície para tomar ar, descendo, então, de volta para o fundo. As leis da probabilidade são tais que, mais cedo ou mais tarde, no momento em que a tartaruga vier à tona, o vento soprará o aro para cima de sua cabeça, que assim atravessará o aro. O fato de que isso venha a acontecer é algo que mal podemos conceber. De acordo com o Buda, as chances de alguém encontrar um nascimento humano precioso são ainda menos prováveis. Quando apreciamos a raridade do nosso nascimento humano precioso e a oportunidade que ele nos oferece, começamos a entender que não devemos desperdiçá-lo mas, sim, devemos preencher seu propósito mais profundo — revelar a essência da nossa existência, a verdadeira natureza da mente.

2 Impermanência.

Um dos melhores métodos para desenvolver prática espiritual pura é meditar continuamente sobre a impermanência. Começamos olhando para o universo inanimado. Em um certo tempo, eras atrás, não havia nada de concreto aqui. Segundo a cosmologia budista, primeiro apareceu o elemento ar, que deu origem aos elementos fogo, água e terra, à medida que o universo físico passou a existir, com o Monte Meru no centro, cercado pelos quatro continentes. Então, formas dotadas de vida começaram a surgir, primeiramente a partir de divisão celular, depois a partir de vários tipos de reprodução assexuada, e então reprodução sexuada, inclusive nascimento vindo de um ovo e do ventre de uma mãe. Esse vasto período de criação culminou na atual “era de duração”, durante a qual haverá dezoito ciclos ascendentes e decendentes de bem estar e felicidade. À medida que o universo se aproximar de seu fim e o meio ambiente físico deixar de ser propício à vida, seres em número crescente renascerão em outros universos. Por fim, a matéria física irá se desintegrar até que, novamente, nada sobrará. Ao pensarmos sobre essas coisas, nossa percepção do universo começa a mudar; damo-nos conta de que, por mais verdadeiro e sólido que ele pareça ser, não é eterno. Em escala menor, vemos que cadeias de montanhas vieram e se foram, e, onde oceanos enormes surgiram, agora encontramos terra seca. Onde cidades outrora floresceram, hoje existem regiões estéreis e vazias, e, no lugar de terras inóspitas, cidades enormes cresceram. Ganhamos consciência das constantes mudanças em nosso meio ambiente, desde os tempos pré-históricos até o período que a história registra. As mudanças são contínuas. Dia a dia, uma estação corre para a próxima. O dia vira noite, a noite, dia. Prédios não ficam velhos de repente; na
realidade, a cada segundo, desde o momento em que foram construídos, começam a deteriorar.
Nosso meio ambiente, corpo físico, fala e pensamentos modificam-se tão velozmente quanto uma agulha espeta uma pétala de rosa. Se você espetar uma pilha de pétalas de rosa com uma agulha, isso pode lhe parecer um único movimento; na realidade, porém, ele se compõe de muitas etapas distintas. Você penetra cada pétala separadamente, atravessando sua superfície externa, a parte do meio, saindo pelo outro lado; atravessa o espaço entre uma pétala e a próxima, o lado de cima desta, e assim por diante. O espaço de tempo
que leva para a agulha atravessar cada uma dessas etapas sucessivas pode ser usado como uma unidade de medida para descrever a velocidade a que mudam todos os fenômenos do nosso mundo. Pense nos seres que habitam este universo. Quantas pessoas nascidas cem anos atrás continuam vivas? Quantos de nós que estamos agora sobre esta Terra estaremos aqui daqui a cem anos? As personagens da história – por mais ricas que foram, por mais famosas ou bem sucedidas, por mais vastos os territórios sob seu domínio — agora são apenas lendas. Nos ensinamentos budistas, conta-se muito a história de um rei tão poderoso que controlava não só o mundo conhecido como também o reino de Indra, rei dos deuses. No entanto, somente sua lenda permanece. Os mestres extraordinários do passado — os oito grandes reis do darma, os vinte cinco discípulos principais do grande mestre Padmasambhava, mesmo o Buda Shakyamuni, uma manifestação de compaixão suprema em forma humana que nasceu em um bosque em Lumbini (hoje Nepal) e ao longo de sua vida realizou doze grandes feitos — não estão mais aqui. Isso não significa que suas bênçãos morreram com seus corpos físicos, pois as qualidades positivas da mente iluminada permeiam os três tempos do passado, presente e futuro. Porém, de nossa perspectiva pessoal, eles desapareceram, da mesma forma que, quando o mundo gira, parece-nos que o Sol se põe. Vemos também a ação da impermanência em nossos relacionamentos. Quantos de nossos familiares, amigos, pessoas de nossa cidade natal morreram? Quantos se mudaram para outros lugares, desaparecendo de nossa vida para sempre?
Quando éramos crianças pequenas, não suportávamos ficar longe de nossos pais. Às vezes, se nossa mãe saía do quarto por dois ou três minutos, ficávamos em pânico. Agora, escrevemos para nossos pais, quem sabe, uma vez por ano. Pode ser que morem do outro lado do mundo. Talvez nem saibamos se eles estão vivos. Como as coisas mudaram!
A um tempo, sentíamo-nos felizes apenas ao estar junto de uma pessoa amada. Só segurar a mão daquela pessoa nos provocava sentimentos maravilhosos. Agora, talvez não possamos aturá-la, não queiramos saber coisa alguma sobre ela. Tudo o que se forma tem que se desfazer, tudo o que se junta tem que se separar, tudo o que nasce tem que morrer. Mudanças contínuas, mudanças implacáveis, são constantes em nosso mundo. “Então”, você poderia pensar, “o universo muda continuamente, e da mesma forma os relacionamentos; no entanto, ‘eu’ sou sempre o mesmo.” Mas quem sou “eu”? Sou o corpo? No momento da concepção, o corpo humano começa como uma única célula, então se multiplica em uma massa de células que se diferenciam para formar vários sistemas orgânicos. Depois de virmos ao mundo como um bebê plenamente formado, começamos a crescer a cada momento, para nos tornamos adultos. Esse processo físico ocorre semana a semana, mês a mês, até que chega um tempo em que percebemos que as coisas estão ficando um pouco piores, e não um pouco melhores. Não estamos mais crescendo; estamos envelhecendo. Inexoravelmente, perdemos certas capacidades: nossa vista se enfraquece, nossa audição falha, nosso raciocínio se embaralha. É a impermanência cobrando seu preço.
Se vivermos a duração normal de uma vida e tivermos uma morte natural, ficaremos mais e mais enfraquecidos, até que, um dia, não conseguiremos mais sair da cama. Talvez não seremos capazes de nos alimentar, de evacuar ou de reconhecer as pessoas à nossa volta. Em um dado momento, morreremos, nosso corpo uma casca vazia, nossa mente vagando pela experiência do pós-morte. Este corpo, que foi tão importante por tanto tempo, será queimado ou enterrado. Pode mesmo vir a ser devorado por animais selvagens ou pássaros. Em um dado momento, nada restará para fazer lembrar aos outros que um dia estivemos aqui. Nós nos tornaremos nada mais do que uma lembrança. “Bem”, você poderia pensar, “o corpo é impermanente, mas o ‘meu eu real’, a minha mente, não é.” No entanto, se você olhar para sua mente, verá que não
é a mesma de quando você era um bebê. Naquele tempo, tudo o que você queria era o leite da sua mãe e um lugar aquecido para dormir. Um pouco mais tarde, alguns brinquedos deixavam você contente. Mais tarde, foi um namorado ou uma namorada, e depois um certo emprego ou casamento ou casa. Suas necessidades, desejos e valores mudaram; não todos de uma só vez, mas segundo a segundo. Mesmo ao longo de um único dia a mente experimenta felicidade e tristeza, pensamentos virtuosos e não-virtuosos, repetidas vezes. Se tentamos segurar um determinado momento, mesmo enquanto pensamos em fazê-lo ele já desapareceu.
Como o corpo e a mente, nossa fala está constantemente mudando: cada palavra que enunciamos se perde; uma outra se apressa para substituí-la. Não há nada que possamos apontar que seja imutável, estável, permanente. Precisamos incutir em nós mesmos uma consciência contínua da impermanência, que esteja viva momento a momento. Isso porque a vida é uma corrida contra a morte, e a hora da morte é desconhecida. Contemplar a aproximação da morte muda as nossas prioridades e nos ajuda a abrir mão do nosso envolvimento obsessivo com coisas ordinárias. Se permanecermos sempre conscientes de que cada momento pode ser o nosso último, iremos intensificar a nossa prática para não desperdiçarmos nem fazermos mal uso da nossa preciosa oportunidade humana. À medida que amadurece a contemplação dessa verdade, será fácil apreendermos os mais elevados, os mais profundos ensinamentos budistas. Vamos ter alguma compreensão de como funciona o mundo, como as aparências surgem e se transformam. Vamos passar de um mero entendimento intelectual da impermanência para a compreensão de que todas as coisas sobre as quais baseávamos nossa crença na realidade são apenas um cintilar de mudança. Começaremos a ver que tudo é ilusório, como um sonho ou uma miragem. Embora os fenômenos apareçam, na verdade nada estável está de fato presente.
Então, poderíamos perguntar, o quê terá utilidade para nós quando morrermos? Não importa quão agradáveis ou simpáticos as pessoas pensem que somos; depois que estivermos mortos, elas não vão querer o nosso corpo por perto. Nem serão capazes de ir conosco, não importa quem sejam ou quão felizes nos fizeram. Temos que morrer sós. Isso é verdade mesmo se formos famosos, mesmo se formos tão ricos quanto o próprio deus da prosperidade. Na hora da morte, toda a riqueza que acumulamos, todo o poder, status e fama que conseguimos, todos os amigos que reunimos — nenhuma dessas coisas nos será de valia. Nossa consciência será extraída do ambiente em que estivermos de forma tão cirúrgica quanto um fio de cabelo de um bloco de manteiga. A única coisa que irá nos beneficiar será nossa prática do darma; a única coisa que nos seguirá na morte será nosso carma positivo e negativo. Nada mais.

Pergunta: Se contemplarmos a impermanência dessa forma, não ficaremos apáticos às necessidades dos outros?
Resposta: Nossa intenção no caminho do darma é aliviar o sofrimento dos outros tanto quanto pudermos, por todas as formas que pudermos, até que, por fim, sejamos capazes de aliviar todo o sofrimento de todos os seres. Ao mesmo tempo, mantemos a consciência da impermanência em todas as coisas que fazemos, lembrando-nos de que, como um sonho, a vida cotidiana acontece, mas não é intrinsecamente real. Fazemos tudo o que está ao nosso alcance, no contexto dessa experiência de sonho, para trazermos benefícios aos outros e para reduzirmos os venenos da mente, de modo a não causarmos mal a nós mesmos nem aos outros. Se praticarmos virtude e reduzirmos a não-virtude, este sonho que chamamos vida irá melhorar. Recordando-nos da natureza da nossa experiência, que é impermanente, como um sonho, iremos por fim despertar, e ajudar os outros a também fazer o mesmo.
À medida que a nossa compreensão da impermanência e da natureza ilusória da realidade aumenta, também aumenta nossa compaixão. Vemos que, aprisionados em sua crença no sonho, sem nenhuma compreensão da impermanência, os seres vivem angústia e sofrimento tremendos. Pelo fato de acreditarem na solidez da sua experiência, reagem com apego e aversão quando seu carma surge, criando mais carma negativo e perpetuando os ciclos de sofrimento.

Pergunta: Qual a diferença que existe entre alguém contemplar a impermanência e ficar olhando no relógio, querendo saber quando irá terminar
aquilo que está fazendo?
Resposta: Tudo se resume a motivação. Se a sua motivação não for auto-centrada, você não notará o relógio tanto assim. Se for, então as
coisas parecerão tomar mais tempo do que você esperaria. Eu não o desaconselho a observar o relógio, mas observe o relógio do samsara: pergunte-se dentro de quanto tempo o samsara vai acabar. Então, a questão passa a ser, “Como eu posso cortar o apego? Como eu posso cortar a aversão? Como eu posso cortar a confusão?” Ao eliminarmos os obscurecimentos da mente, conseguiremos, com o tempo, por fim ao samsara.

Pergunta: Acho que o que o Sr. está dizendo é verdade, mas ainda vejo que o peso dos muitos anos em que não pensei assim é mais forte do que minha crença no ensinamento sobre impermanência. Como posso mudar esse hábito?
Resposta: Suponha que comecemos com um exercício muito simples. Examine a importância que você atribui à comida que come, suas roupas, sua casa, seus amigos, suas conversas, os livros que lê. Você provavelmente verificará que os considera tão cruciais que trabalha dia e noite para mantê-los. Agora, examine essas coisas por um ângulo diferente. Olhe para cada uma delas e pergunte-se se são permanentes. Pergunte se, em última análise, são algo em que você possa se fiar. Na hora da sua morte e para além dela, essas coisas serão confiáveis? E será que valem todo o esforço e preocupação que você dedica a elas agora? Pensar sobre a impermanência e a morte nos ajuda a nos desvencilhar de valores mundanos e a mudar nossas prioridades.
Através da contemplação e aplicação dos ensinamentos em cada momento da sua vida, você verá seus hábitos se transformarem. Você não conseguirá mudar apenas lendo livros. Você precisa procurar, investigar, questionar e examinar. Pode ser que você já tenha sido exposto a todos os tipos de idéias e entendido muitas coisas intelectualmente, mas sem uma contemplação que o leve mais fundo em sua prática e lhe permita chegar a algumas conclusões muito fundamentais, você não será capaz de dar o próximo passo. Para descobrir o que é realmente importante para você, tire alguns minutos agora para refletir sobre o que foi dito aqui, e veja como isso se relaciona com sua própria experiência. Apenas por meio da contemplação você poderá descobrir se a prática espiritual faz sentido para você e toca seu coração.

3 Carma

Embora alguns pensem que o princípio do carma exista apenas na doutrina budista, na realidade pode ser encontrado em quase todas as tradições espirituais. Geralmente é exposto de forma simples: “Se você for bom, irá para o céu, você será feliz. Se você for mau, irá para o inferno, você sofrerá.” Nessas tradições, o princípio da inevitabilidade das conseqüências, que chamamos carma, é como um trem com apenas dois destinos: céu e inferno. A visão budista é a de que o trem tem muitas paradas intermediárias. Quanto maior a bondade de uma pessoa, maiores as suas experiências de felicidade. Quanto maior a negatividade de uma pessoa, maior o seu sofrimento e dor. A realidade atual do nosso dia-a-dia é o resultado cármico dos nossos pensamentos, palavras e atos, nesta vida e em vidas passadas.
Algumas pessoas têm dificuldade com a visão mais extensa que o budismo possui do carma porque não acreditam em reencarnação. Como não podem constatar que elas próprias ou qualquer outra pessoa terão uma existência futura, ou que tiveram alguma existência anterior, não conseguem aceitar a idéia de renascimento. Mas o fato de que não conseguimos nos lembrar de vidas passadas ou vislumbrar vidas futuras não é motivo suficiente para não acreditarmos nelas. Há muitas coisas na quais temos confiança, apesar de não podermos exergá-las ou constatá-las empiricamente. Como amanhã! Não podemos provar que amanhã vai acontecer, mas estamos prontos a apostar que sim. As pessoas não podem provar que, em uma certa idade, vão se aposentar, viver daquilo que reservaram, ter uma vida tranqüila e se divertir; no entanto, muitos estão economizando para isso. Da mesma forma, a incapacidade de recordar ou antever outras vidas não significa que elas não existam.
O carma pode ser comparado a uma semente que, em condições adequadas, dará lugar a uma planta. Se você colocar na terra uma semente de cevada, pode ter certeza de que obterá um broto de cevada. A semente não vai produzir arroz.
A mente é como um campo fértil — coisas de todos os tipos podem crescer nele. Quando plantamos uma semente — um ato, uma palavra ou um
pensamento — num dado momento produzirá um fruto que irá amadurecer e cair por terra, perpetuando e incrementando aquela mesma espécie. Momento a momento, plantamos sementes de causalidade potentes com nosso corpo, fala e mente. Quando se juntarem as condições adequadas para o amadurecimento do nosso carma, teremos que lidar com as conseqüências das coisas que plantamos. Embora sejamos responsáveis por aquilo que semeamos, esquecemos que lançamos aquelas sementes e, quando amadurecem, damos crédito a pessoas ou coisas fora de nós pelo acontecido, ou então as culpamos por isso. Somos como uma ave pousada sobre uma rocha que consegue ver sua sombra, mas que, quando voa, esquece-se de que a sombra existe. A cada vez que pousa, a ave pensa que encontrou uma sombra completamente nova. No momento, temos um pensamento, falamos ou agimos. Mas perdemos de vista o fato de que cada pensamento, palavra e ação produzirá um resultado. Quando o fruto finalmente amadurece, pensamos, “Por que isto aconteceu comigo? Não fiz nada para merecer isto.” Uma vez que tenhamos cometido uma ação negativa, a menos que ela venha a ser purificada, viveremos as suas conseqüências. Não podemos nos esquivar da responsabilidade, nem tentar fazer o carma desaparecer por meio de justificativas. As coisas não funcionam assim. Todo aquele que pratica um ato irá infalivelmente viver os seus resultados, quer positivos, quer negativos. Cada movimento dos nossos pensamentos, palavras e atos é como um ponto no tecido da nossa futura realidade. Latentes em nossa experiência presente estão oceanos de carma vindos de incontáveis vidas passadas, carma este que, nas condições apropriadas, frutificará. Para encontrarmos liberação do samsara precisamos trabalhar no nível das causas, não no nível dos resultados — o prazer e a dor que aparecem como conseqüência do nosso comportamento. Para fazer isso, precisamos purificar nossos erros passados e modificar a mente que planta as sementes do sofrimento, precisamos purificar os venenos mentais que perpetuam o carma infindável. Esse processo é chamado “fechar a porta da não-virtude”, ou seja, evitar conseqüências cármicas com a tomada de medidas preventivas, não mais dar vazão às faltas da mente através das nossas ações. Nós falamos em carma positivo, negativo e neutro. Os atos que geram carma positivo levam a felicidade pessoal e felicidade para os outros. Carma negativo provoca sofrimento para nós mesmos e para os outros. Quando nossa intenção é beneficiar os outros, criamos pensamentos, palavras e ações virtuosos e carma positivo. Quando somos motivados pelos venenos da mente, criamos pensamentos, palavras e ações não-virtuosos e carma negativo. O carma neutro é gerado por ações inócuas, ações motivadas nem pelo desejo de ferir nem pela intenção de ajudar. Por não ter efeito positivo algum, é considerado não-virtuoso. Por essa razão o carma é muitas vezes discutido somente em termos de positivo ou negativo. A motivação altruísta pode levar a carma positivo exaurível ou inexaurível. Criamos carma exaurível quando nossa motivação é beneficiar os outros, mas o nosso quadro de referência continua sendo de curto prazo. Por exemplo, podemos dar de comer a uma pessoa que tenha fome ou cuidar de alguém doente, mas nossa meta continua sendo temporária, não a de ajudar aquela pessoa e todos os demais seres a despertar dos ciclos de sofrimento. Conseqüentemente, a felicidade que resultará da nossa ação virtuosa será temporária e terminará quando o bom carma que tivermos criado com aquela ação se exaurir. Ele não levará a liberação do samsara. Quando uma ação é praticada com a intenção de que uma determinada pessoa, bem como todos os demais seres, não só encontrem felicidade temporária como também acordem da existência cíclica, ela produz carma positivo inexaurível. Esse carma resulta não apenas em felicidade nos reinos superiores da experiência; em termos últimos, resulta em iluminação. Precisamos adquirir certeza absoluta da infalibilidade do processo cármico que atua constantemente em nossa vida, pois o nosso sofrimento sem fim, nossas experiências de estados de nascimento superiores e inferiores, têm suas raízes no desenrolar inexorável do carma positivo e negativo. Havia certa vez um eremita que morava e meditava numa floresta. Ele possuía apenas uma muda de roupa, que geralmente lavava num riacho, e com o tempo ela começou a desbotar. Um dia ele decidiu recuperar a cor original: aqueceu um caldeirão de tintura e colocou dentro a roupa. Nesse interim, um fazendeiro vasculhava a região, em busca de um bezerro perdido. Viu a fumaça do fogo do eremita e imediatamente supos que alguém havia roubado e abatido seu bezerro, e o estava cozinhando. Dirigiu-se à clareira e, não encontrando ninguém por perto, olhou dentro do caldeirão. Aí viu a cabeça e os membros do bezerro fervendo na água. Ele correu até o rei, gritando, “Esse homem que se diz um grande sábio não passa de um simples ladrão. Roubou meu bezerro e, agora mesmo, está ocupado, cozinhando-o para o jantar.” O rei ficou fora de si porque aquela pessoa espiritualizada que estava morando em seus domínios, amealhando alunos, ensinando e adquirindo fama e respeito, havia se revelado um ladrão. Ele mandou seus soldados prender o eremita e jogá-lo na prisão. Na realidade, o bezerro havia apenas se extraviado e, depois de sete dias, achou o caminho de volta para a fazenda do dono, são e salvo. Muito contrito, o fazendeiro foi diretamente ao rei e confessou, “É horrível! Caluniei esse grande santo. Por favor solte-o da prisão imediatamente.” O rei concordou em fazer isso, mas, sendo muito ocupado, esqueceu-se totalmente. Sete meses mais tarde, o sábio ainda estava na prisão. Por fim, um de seus alunos que possuía grandes poderes meditativos voou pelo céu até o rei e disse, “Meu professor nada fez de errado. Por favor, deixei-o ir!” O rei instantaneamente se lembrou e foi ele próprio à masmorra soltar o sábio. O rei estava tomado de remorso não só por tê-lo prendido sem julgamento, mas também por ter se esquecido de liberá-lo. O eremita disse ao rei, “Não há nada de que se lamentar. Esse era o meu carma. Em uma vida passada, roubei e matei um bezerro. Enquanto escapava do dono, cruzei com um homem santo que meditava em uma floresta. Pensei em jogar a culpa nele, depositando a carcaça do animal ao lado de sua cabana e fugindo. Ele foi injustamente acusado e jogado na cadeia por sete dias. As conseqüências desse ato foram tão negativas que minha mente ficou sujeita a nascimento após nascimento nos reinos inferiores da existência. Agora, ao alcançar esta vida humana, tive condições de continuar meu desenvolvimento espiritual. Mas algum carma residual ainda tinha que ser purificado. Do meu ponto de vista, as coisas saíram muito bem.” É crucial entendermos o que é virtuoso e o que é não-virtuoso. Caso contrário, mesmo enquanto praticantes que tentam servir e trazer benefícios, podemos, de fato, criar mais mal do que bem. O defeito sutil que é o orgulho pode aparecer, “Sou uma pessoa tão espiritualizada,” ou “Minha tradição é a melhor,” ou “Aquelas pobres pessoas que não têm um caminho espiritual!” Quando fazemos esses julgamentos, apenas criamos carma negativo. Se deixarmos de usar nosso corpo e mente de modo cuidadoso, disciplinado, nossos defeitos podem piorar. Nossa mente está repleta dos cinco venenos. Com essas tintas no estojo, que espécie de quadro vamos pintar? Criamos não-virtude com o corpo ao matar, roubar ou praticar conduta sexual indevida. Uma ação não-virtuosa plena possui quatro partes. Por exemplo, o ato de matar inclui identificar o objeto a ser morto; estabelecer a motivação de matar; cometer o ato de matar; e, finalmente, a ocorrência da morte da vítima. Se temos a intenção de matar alguém mas não realizamos o ato, ainda assim geramos metade da não-virtude ao identificarmos o objeto e estabelecermos a motivação de matá-lo. Ou, se ao caminhar pela calçada, pisamos acidentalmente numa formiga e a matamos, também criamos metade da não-virtude de matar. Roubar significa tomar algo que não nos foi dado. Inclui pegar alguma coisa sem conhecimento do dono, render uma pessoa a fim de se apoderar de algo, ou usar posição de poder ou autoridade para tirar algo de uma pessoa, em benefício próprio. Conduta sexual indevida consiste em atividade sexual com um menor, com um doente, ou em situação que cause desconforto mental ou emocional, ou que cause a quebra de um voto ou de um compromisso para com um parceiro sexual, quer em relação a si próprio, quer em relação à outra pessoa. As quatro não-virtudes da fala incluem mentir, sendo a pior mentira a falsa afirmação de que se tem realização espiritual; calúnia, que implica o uso da fala para separar amigos próximos, o pior caso sendo caluniar membros do nosso grupo espiritual; fala áspera, que fere os outros; e tagarelice ou uso de palavras vãs, que desperdiça o nosso próprio tempo e o dos outros. A primeira das três não-virtudes da mente é a cobiça. A segunda não-virtude consiste nos pensamentos mal intencionados: querer causar mal ao próximo, desejar que o próximo venha a ser prejudicado ou regozijar-se com o mal feito ao próximo. A terceira não-virtude mental é a visão equivocada. Ter visão equivocada significa pensar de modo muito antagônico, o que é diferente de duvidar e questionar, componentes saudáveis da contemplação espiritual. Acreditar que é bom ser mau, ou é mau ser bom é um exemplo de visão equivocada. Um outro é não acreditar na natureza ilusória das experiências porque não podemos provar isso, negando, assim, a verdade fundamental que por fim propiciará liberação do sofrimento. Pois, embora não possamos provar que a nossa experiência seja ilusória, tampouco podemos provar que não o seja. As dez virtudes decorrem claramente das dez não-virtudes. Salvar e proteger a vida, por exemplo, cria enorme virtude. Todos os seres são iguais na medida em que todos buscam a felicidade, não querem sofrer e valorizam sua vida tanto quanto nós valorizamos a nossa. Salvar a vida de um inseto ou de um outro animal é extremamente virtuoso e, quando o mérito é dedicado, criam-se grandes benefícios, não só para aquele animal, mas para todos os seres. Dedicar méritos em prol da longa vida de outros seres, por exemplo, poder trazer imenso beneficio àqueles que estão doentes. A generosidade, por mais insignificante que pareça ser — mesmo dar um pouco de água ou comida a um pássaro com fome — cria grande virtude. Manter disciplina no relacionamento sexual, dizer a verdade, usar a fala para criar harmonia, para ajudar a mente de uma outra pessoa e para criar benefícios temporários e definitivos, para si próprio e para os outros — essas também são virtudes, assim como o são regozijar-se com a felicidade dos outros, aprender visão correta e gerar pensamentos que mostram bondade e intenção de ajudar. O fruto cármico de uma ação não-virtuosa é parecido quer você próprio pratique a ação, quer você peça que alguém a pratique, quer você se regozije quando uma outra pessoa a realiza. Se você recitar cem mantras sozinho, cria a virtude associada à recitação desse número de mantras. Mas se um grupo de dez pessoas recita cem mantras, cada membro do grupo gera a virtude de recitar mil mantras. Igualmente, se um membro de um grupo mata alguém, todas as demais pessoas do grupo geram a mesma não-virtude. Embora nossa situação possa parecer sem conserto, por meio da confissão e da purificação podemos evitar o carma negativo que acumulamos desde o tempo sem princípio. Diz-se que a única virtude da não-virtude é que pode ser purificada. Quando eu era uma criança pequena, uma senhora veio visitar minha mãe. Ela usava um colar do qual pendia um objeto liso e brilhante. Fascinado, perguntei-lhe o que era. “Um osso de peixe,” respondeu. Eu o quis para mim! Tinha que ter um igual! Então, corri até o rio e peguei um peixe pequeno, pensando que teria dentro um osso lindo. Pus o
peixe no chão e tirei minha faca. Não conseguia olhar ao tentar cortar o peixe, de modo que voltei o rosto para o outro lado. Mas a faca estava sem corte e eu não conseguia matar o peixe. Ele ficou pulando de um lado para outro, e finalmente morreu de exposição ao ar. Quando parou de se movimentar, abri-o e olhei dentro. Não havia osso algum parecido com o que a mulher usava no pescoço. Aborrecido, voltei para casa e disse a ela, “Olhei dentro de um peixe, mas não consegui encontrar um osso assim.” “Não, não, não”, disse ela. “Você só encontra um osso assim em peixes que moram no mar.” Foi então que percebi que talvez tivesse feito algo de errado. Eu havia matado um peixe, e não era sequer do tipo certo. Mais tarde, quando tinha vinte e dois anos e estava fazendo meu segundo retiro de meditação de três anos, tive um sonho em que olhava para uma extensão vastíssima de água. O céu e a água se encontravam. Nunca havia visto nada parecido, nem mesmo em desenho, já que o Tibet não é banhado pelo mar. Indaguei, “O que é isto?” Alguém no sonho disse, “Este é o lugar onde você vai renascer.” Então, lembrei-me do peixe e compreendi que esse era o carma que eu havia criado ao matá-lo. Pedi em oração, “Se vou renascer como peixe, faça com que eu seja um peixe pequeno para não criar mais carma negativo comendo outros peixes.” Quando acordei bem cedo na manhã seguinte, um peixe apareceu no escuro à minha frente. Para todo lado que eu me voltava, o peixe estava ali. Não podia fugir dele. Comecei a recitar o mantra Om Mani Padme Hum nos intervalos das sessões de prática do retiro, dedicando a virtude da minha prática ao peixe que havia matado. Depois de completar um milhão de recitações, o peixe finalmente desapareceu. Penso que, agora, possivelmente tenha purificado meu carma com peixes.
Não precisamos saber exatamente que carma estamos purificando para empregarmos um determinado método: as técnicas de purificação atuam sobre o carma negativo de toda espécie. O desenvolvimento de compaixão, amor, bondade e altruísmo, a recitação de mantras, a meditação sobre os seres iluminados e preces a eles — tudo isso ajuda a diminuir nosso sofrimento presente, ajuda a nos tornarmos mais cuidadosos quando estamos praticando evitar causar o mal, e também ajuda a purificar as causas do sofrimento futuro. No entanto, enquanto estamos fazendo prática de purificação, se pensarmos, “Tenho tanto carma negativo para purificar” ou “Quero realmente alcançar a iluminação,” nossa motivação não será pura. Esse tipo de prática voltada para os nossos próprios interesses é menos eficaz do que a atitude de alguém que gera compaixão pura, mesmo fora do contexto de uma prática formal. Dentre todos os métodos, o mais eficaz é a prática formal feita com base na compaixão e na intenção de liberar todos os seres do samsara. Sempre que manifestamos amor, compaixão, bondade de coração e a intenção pura de trazer ajuda, essas qualidades, como um solvente, naturalmente purificam e dissolvem o carma. Asanga, um grande praticante budista hindu, retirou-se em uma caverna para meditar dia e noite no Buda Maitreya. Depois de seis anos, não tinha tido um único sonho auspicioso, uma única visão — nenhum sinal de realização. Então, concluiu que sua meditação era inútil. Deixou a caverna e, ao seguir pela estrada, passou por um homem que esfregava um lenço de seda numa coluna de ferro. Asanga perguntou ao homem, “O que o senhor está fazendo?” “Estou fazendo uma agulha,” respondeu o homem.
Asanga pensou, “Mas que perseverança! Ele está esfregando uma coluna de ferro com um lenço de seda para fazer uma agulha, e eu sequer tenho paciência suficiente para permanecer em retiro.” Caminhou de volta para sua caverna e começou novamente a meditar, dia e noite, no Buda Maitreya. Depois de mais três anos de meditação, ele ainda não havia recebido sinal algum de realização. Nenhum sonho, nenhuma visão, nada. Novamente, muito desanimado, deixou o retiro. Ao seguir pela estrada, viu um homem que mergulhava uma pena num balde d’água e a passava sobre a superfície de um enorme rochedo. Asanga perguntou ao homem o que fazia. “Este rochedo está fazendo sombra sobre a minha casa,” respondeu, “então, eu o estou removendo. Asanga pensou, “Eis aqui alguém que, para ter apenas um pouco de Sol sobre seu telhado, se dispõe a ficar em pé interminavelmente, removendo um rochedo com uma pena. E eu não consigo sequer meditar até que obtenha um sinal.” Então, voltou para a caverna e sentou-se em meditação.
Após um total de doze anos em retiro, ele ainda não havia recebido sinal algum. De novo, desencorajado e decepcionado, partiu. Ao seguir pela estrada, desta vez encontrou um cachorro muito doente. A parte inferior de seu corpo estava apodrecida por gangrena e cheia de larvas de moscas varejeiras. Sem as duas pernas de trás, ele conseguia apenas se arrastar pela estrada. Ainda assim, voltava-se para todos os lados, tentando morder quem estivesse em volta. O coração de Asanga se comoveu. “Este pobre cachorro,” pensou “o que posso fazer para ajudá-lo? Tenho que limpar a ferida, mas com isso posso matar as larvas. Não posso tirar a vida de um para preservar a de outro; toda vida tem valor.” Por fim, decidiu que, se usasse sua língua com cuidado para retirar as larvas da ferida, poderia salvar tanto os insetos quanto o cachorro. A
idéia era repugnante, mas fechou os olhos e se abaixou. Quando abriu a boca, sua língua tocou não o animal, mas o chão. Abriu os olhos. O cão havia sumido e ali estava o Buda Maitreya.
“Faz anos e anos que estou rezando a você,” exclamou Asanga, “e esta é a primeira vez que você aparece!” O Buda respondeu muito suave, “Desde o primeiro dia que você começou sua meditação, tenho estado a seu lado. Mas, por causa dos venenos da sua mente e dos enganos e ilusões criados por sua não-virtude, você não conseguia me ver. Era eu o homem que esfregava a coluna, era eu o homem que passava a pena no rochedo. Somente quando apareci como esse cachorro apodrecido é que você teve compaixão e altruísmo suficientes para purificar o carma que o impedia de me ver.” O carma pode também ser purificado por meio da confissão e arrependimento sinceros, com a utilização das quatro forças. A primeira delas é a força da testemunha ou do apoio. Invocamos, como a testemunha da nossa prática, a corporificação de perfeição na qual temos fé, um determinado aspecto do ser iluminado, como por exemplo Tara, a corporificação da sabedoria, ou Vajrasatva, a deidade da purificação. A segunda força é a do arrependimento sincero de todas as nossas ações negativas, nesta vida e em todas as passadas — arrependimento não apenas em relação a incidentes específicos dos quais nos lembramos, mas em relação a todo o rol de atos nocivos que cometemos desde o tempo sem princípio. O arrependimento precisa ser sincero, como se de repente percebêssemos que, por engano, tivéssemos engolido um veneno mortal. Sentimos angústia por termos agido, durante incontáveis vidas, por formas que apenas resultarão em sofrimento. Arrependemo-nos por ser negligentes, ignorantes quanto às conseqüências morais do que fizemos. Reconhecemos essas ações como danosas e aceitamos responsabilidade por elas.
A terceira força é a decisão firme de não cometermos quaisquer ações negativas no futuro. Não podemos passar o dia nos entregando a pensamentos e ações negativos e, então, à noite, esperar purificá-los com um pouco de prática de meditação. Em lugar disso, precisamos assumir o compromisso sincero de nunca repeti-los. Uma famosa prece da tradição tibetana afirma que, sem arrependimento e firme resolução, a confissão não é eficaz.
A quarta força é a do antídoto, da purificação e da bênção. Visualizamos néctar ou raios de luz que descem do objeto da nossa fé e atravessam nosso corpo, purificando-nos, lavando e removendo todas as negatividades, doenças e obscurecimentos. Na Índia budista, alguns séculos atrás, uma monja chamada Palmo contraiu lepra. Como nenhum tratamento eficaz era conhecido, seu corpo começou a definhar e a se deteriorar. Ela fez seguidamente o ritual de jejum de dois dias do bodisatva da compaixão, Avalokiteshvara, uma prática de purificação muito forte. Depois de um longo período, teve uma visão de Avalokiteshvara e ficou completamente curada. Ela havia purificado o carma que resultara em sua terrível doença. Na medicina tibetana, também não há um tratamento eficaz para a lepra. As pessoas que portam esse mal são isoladas de todas as demais, e a comida que lhes é trazida é deixada à distância. Quando um leproso morre, ninguém ousa tocar ou enterrar seu corpo. Em vez disso, a casa é desabada sobre o cadáver. Um lama tibetano com lepra praticou mil vezes seguidas o mesmo ritual de jejum de dois dias, ligado a Avalokiteshvara, e ficou curado. Por meio de prática diligente, eras e eras de carma podem ser purificadas em uma única vida, ao passo que, em circunstâncias normais, o amadurecimento e a purificação do carma prolongam-se por vidas a fio.

Pergunta: A morte de crianças inocentes numa guerra — isso se deve ao carma delas ou a alguma outra coisa?
Resposta: De modo geral, tudo é resultado de algum tipo de predisposição ou tendência cármica. Mas isso não quer dizer que todas as tendências cármicas têm igual força ou igual urgência. Algumas são mais potentes do que outras. Crianças que são mortas em uma guerra nada fizeram nesta vida presente para justificar sua morte. Mas para nascerem quando e onde nasceram, e morrer nessas circunstâncias, devem ter criado, em uma existência anterior, o carma para morrer assim. Isso não significa que mereciam morrer. Mas explica porque são “vítimas inocentes.”

Pergunta: São tantos os seres e tanto o carma — como é que tudo se arruma? Como é que tudo é monitorado? Como é que tudo acontece certinho?
Resposta: Não é um processo que necessariamente precise ser monitorado. As ações se desenrolam do seu próprio modo, sem que ninguém controle o resultado. Não é como se alguém tivesse que contabilizar tudo para que cada qual fosse parar no reino certo, etc. As ações de cada ser determinam as experiências futuras desse ser.

Pergunta: O carma sempre amadurece do mesmo jeito?
Resposta: A situação do carma é mais complexa do que um único ato específico sempre levando a um resultado específico. Por exemplo, há o que chamamos o amadurecimento pleno de uma tendência cármica. As ações virtuosas, aquelas que contribuem para a felicidade dos outros, trazem benefício à pessoa que as pratica, nesta vida ou em alguma vida futura. Essas ações, em geral, contribuem para renascimento nos estados superiores da existência. Ao contrário, atos prejudiciais que provocam dor e sofrimento, como matar, amadurecem como renascimento nos reinos inferiores. Existem também as conseqüências cármicas conhecidas como comportamento em harmonia com a ação inicial. Tome, por exemplo, um ser, como um animal predador, um caçador ou um soldado que mate muitas coisas vivas. O amadurecimento pleno dessa tendência de matar é renascimento no reino dos infernos. Uma vez que esse carma tenha se exaurido, aquele ser, em virtude de outros carmas virtuosos, poderá alcançar um nascimento humano e, no entanto, ainda apresentar o hábito de matar. Ao tirar a vida de muitos seres, essas pessoas criam a predisposição ou a compulsão de tirar a vida; isso parece se tornar parte de seu caráter. Além disso, há a experiência que se coaduna diretamente com a ação inicial. Por exemplo, uma pessoa pode matar muitos seres e, como resultado, renascer em um reino dos infernos. Muito mais tarde, ao encontrar um renascimento humano, a vida daquela pessoa será curta ou mesmo terminada violentamente.
Um único ato possui uma multiplicidade de conseqüências potenciais. As coisas não acontecem no sentido de que praticamos um ato, então vamos para um outro reino pagar as conseqüências, e então voltamos novamente para o reino humano. Na realidade, as coisas são muito mais complicadas. O importante é compreender que, se cometemos uma ação nociva numa vida passada ou nesta vida, inevitavelmente criamos carma negativo. Não podemos escapar desse fato, embora possa haver aspectos dele dos quais não estejamos cientes no momento.

Pergunta: Considerando a quantidade de carma negativo que gerei só nesta vida, simplesmente por ignorância, por não compreender os efeitos do que eu estava fazendo, ajuda saber que há práticas de meditação que posso fazer, e saber que a compaixão, o amor e a bondade também purificam o carma. Mas, e toda não-virtude que criamos a cada dia sem ter a intenção disso, por exemplo comendo carne ou usando roupas de algodão, quando sabemos que insetos foram mortos na colheita do algodão?
Resposta: É verdade que, para podermos comer ou beber, outros seres, com frequência, são prejudicados. Alguns vegetarianos pensam que não têm responsabilidade alguma pela morte de seres vivos. Entretanto, ao se plantar e colher cereais, legumes e chá, muitos animais que vivem no solo são mortos quando a terra é revolvida e eles ficam expostos ou são esmagados, e muitos outros morrem afogados quando as lavouras são irrigadas. Nós das regiões montanhosas do Tibet costumávamos sentir grande compaixão pelas pessoas das terras baixas que consumiam muitos cereais e legumes, por causa do grande número de insetos que morriam para que elas pudessem comer. Quando comíamos carne de iaque, um prato do nosso cotidiano, apenas um ser tinha que morrer para alimentar muitas pessoas por muitas refeições. Nos campos de refugiados na Índia, onde moramos depois de fugir da ocupação chinesa do Tibet, trabalhamos em fábricas de chá e vimos muitos insetos morrer à medida que cada folha era arrancada durante a colheita. É difícil viver sem causar mal aos outros. Mas podemos começar tentando não causar. Ao comer, seja carne seja vegetais, ao menos não nos envolvemos com três dos quatro fatores da ação não-virtuosa: identificar a vítima, estabelecer a motivação de matá-la, e executá-la ou ordenar que isso seja feito. Nossa única não-virtude é o regozijo com o fato de sua morte pelo nosso consumo da comida, através do qual compartilhamos a não-virtude da pessoa que, de fato,
provocou a morte. Além de não causar mal intencionalmente, podemos dedicar os méritos que criarmos a todos aqueles seres com quem temos ligação, quer positiva quer negativa — neste caso, àqueles com quem temos uma ligação negativa pelo fato de comer, beber ou usar algodão — para que benefícios temporários e últimos surjam para eles. Então, nossa relação com esses seres pode se tornar a ligação deles com o caminho da liberação. Podemos até mesmo custear praticantes em retiro para que façam práticas especiais de purificação e dediquem o mérito dessas práticas aos seres que prejudicamos. Certa vez, alguém perguntou a um grande praticante acerca de sua vida passada, dizendo, “Você deve ter sido um lama muito elevado ou ter praticado grande virtude para conquistar tanta realização nesta vida.” O praticante respondeu, “Nada disso. Em minha vida passada fui um cabrito, sem nenhum ligação prévia com o darma. Mas um grande iogue fez orações fervorosas em meu benefício, antes de comer meu corpo, e minha prática nesta vida é resultado dessas preces.” Purificar o carma por meio de prática espiritual não exige que deixemos para trás nossa vida mundana. Antes, ao integrar a prática em nossas atividades do cotidiano, repousando na verdadeira natureza da mente, podemos purificar todo o nosso carma acumulado, em uma só vida.

4 O Oceano de Sofrimento

O resultado de todas as ações que praticamos forma a trama da nossa vida, como a de um tapete: cada fio, cada detalhe. Cada um de nós continua a tecer diferentes realidades físicas e ambientais, amarrando-nos mais fundo aos ciclos de sofrimento. Nossa experiência depende do nosso carma, que produz graus variados de enganos e ilusões. Se os venenos da mente são agudos, experimentamos uma realidade muito dolorosa, infernal. Se os venenos se reduzem, nossa realidade se torna menos severa, mais agradável.
O Buda falou sobre sofrimento do mesmo modo que falaríamos sobre doença a uma pessoa enferma, simplesmente para ajudá-la a compreender que não está bem, que há algo de errado. Se não houvesse cura para o sofrimento, não haveria porque discuti-lo. Mas o fato de que a cura existe faz com que seja de capital importância reconhecermos o sofrimento como fundamental; podemos, assim, começar a encontrar essa cura.
Há três tipos de sofrimento. O primeiro é o sofrimento que se sobrepõe ao sofrimento. Uma coisa ruim acontece em cima de outra, e parece não haver justiça alguma no processo. Quando você pensa que a situação em que está não pode ficar pior, ela fica. Você perde dinheiro, depois um parente, depois a juventude — há inúmeras maneiras pelas quais sofremos. O segundo tipo é o sofrimento da mudança. Nada é confiável ou consistente. Por maior que seja a nossa esperança de ter uma base sólida sobre a qual nos apoiarmos, tudo aquilo com o que contamos sempre se corrói, criando grande dor. O terceiro é o sofrimento que tudo permeia. Da mesma forma que, quando você espreme uma semente de gergelim, constata que ela está permeada de óleo, pode parecer que a nossa vida seja feliz, mas, quando somos espremidos, sofremos. Tão certo quanto o fato de que nascemos é o fato de que iremos ficar doentes, envelhecer e morrer.
Dentro do samsara, há incontáveis seres cujo sofrimento é, de longe, maior do que o nosso. Noventa e cinco por cento deles experimentam uma realidade brutal. A vida de apenas cinco por cento — humanos, semideuses e deuses mundanos — é relativamente bem afortunada. Entretanto, nós humanos freqüentemente nos lamentamos da nossa existência, queixando-nos amargamente dos nossos terríveis problemas. Nunca nos sentiríamos assim se tivéssemos uma apreciação do grau tremendo de sofrimento que existe em outros reinos. A pior de todas as experiências humanas é ainda mil vezes mais tolerável do que aquilo que os seres de menor sofrimento nos reinos inferiores têm que suportar. Seu sofrimento é tão lancinante que mal podemos concebê-lo; sua duração é insondável. Para alguns seres nem mesmo a morte serve de escape,
até que se passem centenas de milhares de anos, às vezes eras inteiras.
A maioria dos seres nesses reinos não dispõem de tempo para ajudar a si próprios. Seu sofrimento permanece tão intenso que não têm um momento, uma oportunidade, para meditar ou para examinar a si mesmos ou sua vida de um ângulo diferente. Outros seres, em reinos superiores, vivem embriagados de prazer. Um falso contentamento permite-lhes se assentar em um estado de inatividade. Quando sua longa vida inevitavelmente chega ao fim, experimentam terrível sofrimento, pois não usaram suas amplas oportunidades para criar condições para sua felicidade futura.
A idéia de que podemos vivenciar reinos de sofrimento que chamamos de infernos deixa muitas pessoas céticas ou enraivecidas. Elas não acreditam em inferno; pensam que este conceito não passa de uma tática que algumas religiões empregam para assustar e controlar as pessoas. Em certo sentido, é verdade que o inferno não existe. Se fizermos uso de toda a tecnologia do mundo para tentar chegar ao centro da Terra, nunca acharíamos o inferno. No entanto, muitos seres estão sofrendo no reino dos infernos neste exato momento.
O inferno é o reflexo dos enganos e fantasias da mente, dos pensamentos e intenções raivosos, e das palavras e ações nocivas que eles produzem. Se não forem controlados, não há como deixarmos de vivenciar o inferno. Os praticantes precisam ser cuidadosos. Alguns podem pensar, “Minha meditação é tão profunda que eu não tenho que me preocupar com o carma.” Mas as repercussões das visões enganosas são infalíveis, e para se renascer no inferno não é preciso de muito engano.
Algumas pessoas experimentam o inferno mesmo enquanto contam com um corpo humano. Muitas delas ocupam nossos hospitais. Há pessoas que são atormentadas pela idéia de que alguém está tentando assassiná-las ou arrancar sua carne. Há algumas que têm a experiência de estar sendo comidas vivas ou estar presas em um incêndio. Poderíamos estar sentados no mesmo quarto que elas, e não enxergar nada do que sofrem.
Ao mesmo tempo, podemos estar bem ao lado de um grande meditador que vivencia o céu, a terra pura, sem que nós mesmos enxerguemos isso.
O inferno e o céu, na verdade, não estão tão longe um do outro. Entender isso é um pouco capcioso, já que a experiência do céu é muito diferente da do inferno. Mas isso ganha sentido se considerarmos o exemplo de uma substância simples como a água. Para os humanos, a água é crucial para a manutenção da vida; para os peixes, é o seu meio ambiente; para os deuses mundanos, uma substância semelhante à ambrosia; para os fantasmas famintos, sangue e pus; para os seres dos infernos, lava derretida. Não é que a substância em si varie de um caso para outro, mas, sim, que se modifica a percepção e a experiência que seres diferentes têm dela. Da mesma forma que nossa visão se altera quando pomos óculos com graus diferentes, nossa experiência da realidade é inteiramente condicionada por nossa percepção, a qual é determinada pela extensão dos nossos enganos e fantasias.
Em escala cósmica, as experiências das seis classes de seres nos três reinos da existência (os reinos do desejo, da forma e da não-forma) — a existência cíclica em seu todo — constituem dramas coletivos que se desenrolam como expressão do carma grupal desses seres. Quando vemos um filme projetado numa tela, conferimos a ele uma certa medida de realidade, e por essa razão somos afetados por ele. Ficamos contrariados, radiantes, aterrorizados ou enraivecidos por aquilo que vemos. Não importa que conheçamos a origem do cinema ou compreendamos como ele funciona. Quando assistimos a um filme, ele nos modifica ao evocar determinados estados emocionais. Podemos dar um passo atrás e dizer que, em termos últimos, não há nada ali, é apenas um filme. Mas na maior parte do tempo permanecemos totalmente absorvidos por aquilo a que estamos assistindo. Se um grupo de pessoas se sentar diante da mesma tela de cinema, serão afetadas mais ou menos da mesma maneira. Uma comédia vai d

eixá-las alegres; um filme de terror irá amedrontá-las. Como seres humanos que compartilham uma realidade coletiva denominada reino do desejo, verificamos que os impulsos mais fortes em nossa mente são o desejo e o apego, e enxergamos as coisas por modos muito semelhantes.
Embora grandes meditadores consigam vislumbrar outros reinos, nós não temos prova absoluta sequer de que o nosso mundo fenomênico humano exista além das nossas mentes individuais e coletivas. Ainda assim, da mesma forma que tomamos nossos sonhos como reais enquanto estamos dormindo, consideramos real o nosso reino humano. E os cinco outros reinos são tão reais para os seres que neles existem quanto a nossa experiência é para nós. O inferno parece tão real para um ser do inferno, o reino dos fantasmas famintos tão real para um fantasma faminto, quanto o reino humano parece para nós. Em última análise, o sofrimento provém não dos fenômenos desses reinos, mas do fato dos seres conferirem realidade a eles.
Assim, não é contraditório dizer que nossa experiência é real ou verdadeira, e ao mesmo tempo falsa. Nem é contraditório dizer o mesmo de qualquer outro reino. Se insistimos que o reino humano é real, então todos os demais reinos são reais, porque os seres que neles existem os experimentam como reais.
O sofrimento mais agudo de todos os reinos é aquele dos dezoito infernos, o reflexo e as conseqüências cármicas da raiva e do ódio, e de sua expressão em pensamentos, palavras e ações. Os seres aí padecem de calor e frio extremos. Nos infernos quentes, chamas do comprimento de um antebraço cobrem toda a superfície. Com cada passo, o pé se queima. Quando é levantado, se cicatriza; então, com o próximo passo, se queima novamente. O fogo arde com uma intensidade inconcebível. Diz-se que as chamas produzidas pela madeira pura de sândalo são sete vezes mais quentes do que o fogo comum, e sete vezes mais quente ainda será o fogo que consumirá o universo no final desta era; mas o fogo dos infernos quentes é sete vezes ainda mais quente do que este último.
O corpo dos seres dos infernos não é igual ao nosso. Nosso corpo de carne e osso possui um certo nível de tolerância; consegue suportar ou sentir dor somente até um determinado ponto. Mas os seres dos infernos, cujo corpo é tão sensível quanto um globo ocular, não desmaiam, perdem consciência nem morrem até que seu carma termine.
Em um dos infernos, imagens de todos aqueles seres que matamos — quer seja um veado, um inseto ou uma pessoa — surgem tão grandes quanto montanhas e nos esmagam entre elas. À medida que se separam, nosso corpo se recompõe uma vez mais, apenas para ser novamente esmagado, e assim indefinidamente. Em um outro inferno, os seres nascem com uma risca que atravessa o comprimento de seu corpo, ao longo da qual são cortados ao meio por uma serra. As duas metades se restabelecem e se unem, apenas para ser cortadas de novo, e assim sucessivamente.
Nos infernos frios, o meio ambiente gelado, inóspito, brutal, não oferece nem roupa nem abrigo. Se os seres humanos adormecem e morrem quando ficam congelados, os seres neste reino de enregelar os ossos não morrem até que seu carma se exaura, por mais congelados que fiquem. Seus corpos racham como carne deixada por muito tempo num congelador.
Centenas de vezes mais horripilante do que qualquer outro reino, o inferno é simplesmente o pior lugar para se estar.
Os fantasmas famintos padecem de imensa fome, sede e exposição ao tempo. Novamente, este reino não é simplesmente uma metáfora, mas muito real para os seres aprisionados nele, pois vivem constantemente esfomeados e ardendo de sede. Os seus próprios corpos são construídos de modo a criar dor. Têm uma cabeça enorme, imensa como uma montanha, e barriga do tamanho de um vale. Seu pescoço é tão diminuto quanto um pequeno fio do rabo de um cavalo, de modo que nada pode passar pela garganta. Seus membros são tão descarnados que não conseguem sustentar o corpo, e é extremamente difícil para eles se movimentar e procurar comida. A maior parte do tempo, os fantasmas famintos podem só ficar deitados de bruços e passar fome. Se chegam a encontrar alguma comida, geralmente é imunda ou apodrecida, e, se
conseguem engoli-la, vira fogo em seu estômago.
Ganância e apego extremos são as causas cármicas do nascimento no reino dos fantasmas famintos. Enquanto o carma que sustenta sua existência não se exaure, os fantasmas famintos são incapazes de morrer, apesar de sua agonia, que pode durar milhares de anos.
No reino animal, o sofrimento resulta principalmente do ataque de uma espécie pela outra. Dado que os animais constantemente buscam matar e
comer-se uns aos outros, vivem sob perpétuo medo. Os animais selvagens não comem um único bocado de capim sem olhar de um lado para outro, para se certificar de que estão seguros. O tratamento rude dos animais domesticados pelos humanos também causa grande dor e sofrimento. Os animais possuem liberdade muito limitada; por maior e mais potente que seja o elefante, por mais belo que seja o pavão, não possuem a capacidade de refletir sobre alguma coisa e então agir. Este carma provém de ações não-virtuosas motivadas por ignorância e estupidez.
Ações virtuosas manchadas por todos os venenos da mente, sem predominância de qualquer um deles, produzem renascimento como ser humano. Embora, como vimos, as condições deste reino sejam relativamente bem afortunadas, não obstante conhecemos o sofrimento ligado ao nascimento, velhice, doença e morte, ligado à guerra, violência, fome e, mais sutilmente, ao desejo não-preenchido.
Os semideuses têm um meio ambiente agradável, mas são atormentados por inveja e espírito de competição e, assim, estão sempre envolvidos com brigas, derramamento de sangue e guerras. Renascimento como semideus é produzido por ações virtuosas manchadas por inveja e competição, ações que trazem ajuda mas que são praticadas apenas para demonstrar que alguém está fazendo mais do que o outro, ou que é superior ao outro.
No reino dos deuses mundanos, o carma da virtude manchado pelo orgulho produz condições maravilhosas. Os deuses mundanos nunca se sujam, nunca cheiram mal, nunca têm que lavar sua roupa. As flores que ornamentam seus corpos conservam-se frescas para sempre — até sete dias antes de sua morte. Então suas flores se deterioram, seus corpos ficam sujos e começam a exalar odor, e eles sabem que logo morrerão. Por sete dias — o equivalente a trezentos e cinquenta anos humanos — passam pela angústia de saber em que reino inferior vão cair. Por fim, quando o carma que sustenta sua existência se exaure, os seres do reino dos deuses morrem.
Os deuses do reino da forma e da não-forma vivem em um tipo rudimentar de samadhi ou absorção meditativa. Renascimento no reino da não-forma é produzido por apego à estabilidade, renascimento no reino da forma por apego à clareza, e renascimento como deus no reino do desejo por apego ao prazer de certos estados sublimes de felicidade. Embora esses renascimentos não sejam terríveis, ainda são samsáricos. Mais cedo ou mais tarde, uma vez exaurido o carma positivo que mantém aquela existência, a embriaguez desses seres terminará e eles renascerão em algum reino inferior, mais doloroso.
Quando tomamos consciência do sofrimento e das limitações da existência cíclica, passamos a ter motivação para encontrar uma saída, da mesma forma que, quando nos damos conta de que estamos doentes, buscamos remédio. Ao compreender que a virtude e a não-virtude determinam se a nossa experiência será de felicidade ou de tristeza, prazer ou dor, cabe-nos uma escolha: podemos mudar as nossas ações e cultivar qualidades virtuosas, buscando liberação para nós mesmos e para todos os seres, ou podemos continuar a criar não-virtude, perpetuando sofrimento sem fim.
Quando realmente começamos a compreender o sofrimento, começamos a ver o samsara como um pântano pútrido dentro do qual caímos. Nosso único desejo passa a ser o de libertarmos a nós mesmos e aos outros. Essa atitude de buscar liberação para nós e os para outros é uma qualidade que denominamos renunciação, um elemento crucial para nosso ingresso no caminho espiritual.
Através da contemplação contínua da nossa existência humana preciosa, da morte e impermanência, do carma e sofrimento, a mente se volta para o darma. Se sua visão consegue atravessar os três venenos, o combustível do samsara, de modo que eles deixam de dominar sua mente, então essas quatro contemplações fizeram seu trabalho. Se não, prossiga refletindo sobre os quatro pensamentos até que se tornem parte de sua pessoa, até que eles tenham fundamentalmente transformado sua visão do mundo.

(Fragmento de “Portões da Prática Budista” de S.E. Chagdud Tulku Rinpoche)

O Presente

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O homem por detrás do balcão olhava a rua de forma distraída.
Uma garotinha se aproximou da loja e amassou o narizinho contra o vidro da
vitrine. Os olhos da cor do céu, brilhavam quando viu um determinado objeto.

Entrou na loja e pediu para ver o colar de turquesa azul.

- É para minha irmã. Pode fazer um pacote bem bonito?, diz ela.
O dono da loja olhou desconfiado para a garotinha e lhe perguntou:
- Quanto de dinheiro você tem?
Sem hesitar, ela tirou do bolso da saia um lenço todo amarradinho e foi
desfazendo os nós. Colocou-o sobre o balcão e feliz, disse:
- Isso dá?

Eram apenas algumas moedas que ela exibia orgulhosa.
- Sabe, quero dar este presente para minha irmã mais velha. Desde que morreu nossa mãe ela cuida da gente e não tem tempo para ela. É aniversário dela e tenho certeza que ficará feliz com o colar que é da cor de seus olhos.

O homem foi para o interior da loja, colocou o colar em um estojo, embrulhou com um vistoso papel vermelho e fez um laço caprichado com uma fita verde.
- Tome!, disse para a garota. Leve com cuidado.
Ela saiu feliz saltitando pela rua abaixo.
Ainda não acabara o dia quando uma linda jovem de cabelos loiros e
maravilhosos olhos azuis adentrou a loja. Colocou sobre o balcão o já
conhecido embrulho desfeito e indagou:
- Este colar foi comprado aqui?
- Sim senhora.
- E quanto custou?
- Ah!, falou o dono da loja. O preço de qualquer produto da minha loja é
sempre um assunto confidencial entre o vendedor e o cliente.
A moça continuou:
“Mas minha irmã tinha somente algumas moedas! O colar é verdadeiro, não é? Ela não teria dinheiro para pagá-lo!”

O homem tomou o estojo, refez o embrulho com extremo carinho, colocou a fita e o devolveu à jovem.
- Ela pagou o preço mais alto que qualquer pessoa pode pagar. ELA DEU
TUDO O QUE TINHA.
O silêncio encheu a pequena loja e duas lágrimas rolaram pela face
emocionada da jovem enquanto suas mãos tomavam o pequeno embrulho.

“Verdadeira doação é dar-se por inteiro, sem restrições. Gratidão de quem ama não coloca limites para os gestos de ternura. Seja sempre grato, mas não espere pelo reconhecimento de ninguém. Gratidão com amor não apenas aquece quem recebe, como reconforta quem oferece.”

Publicado originalmente entre 1999 e julho de 2000 no site Calor Humano

Trabalhe como se você nao precisasse do dinheiro.
Ame como se você nunca tivesse tido uma decepçao.
Dance como se ninguém estivesse te assistindo.

A gente colhe o que a gente planta

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O nome dele era Fleming e era um pobre fazendeiro escocês. Um dia, enquanto trabalhava para ganhar a vida e o sustento para sua família, ele ouviu um pedido desesperado de socorro vindo de um pântano nas proximidades. Largou suas ferramentas e correu para lá. Lá chegando, enlameado até a cintura de uma lama negra, encontrou um menino gritando e tentando se safar da morte. O fazendeiro Fleming salvou o rapaz de uma morte lenta e terrível.

No dia seguinte, uma carruagem riquíssima chega à humilde casa do escocês. Um nobre elegantemente vestido sai e se apresenta como o pai do menino que o fazendeiro Fleming tinha salvado.

” Eu quero recompensá-lo”, disse o nobre. ” Você salvou a vida do meu filho”.

” Nao, eu nao posso aceitar pagamento para o que eu fiz”, responde o fazendeiro escocês, recusando a oferta.

Naquele momento, o filho do fazendeiro veio à porta do casebre.

” É seu filho? ” perguntou o nobre.

” Sim, ” o fazendeiro respondeu orgulhosamente.

” Eu lhe farei uma proposta. Deixe-me levá-lo e dar-lhe uma boa
educaçao. Se o rapaz for como seu pai, ele crescerá e será um homem do qual você terá muito orgulho”.

E foi o que ele fez. Tempos depois, o filho do fazendeiro Fleming se formou no St.Mary’s Hospital Medical School de Londres, ficou conhecido no mundo como o notável Senhor Alexander Fleming, o descobridor de Penicilina.

Anos depois, o filho do nobre estava doente com pneumonia.

O que o salvou? Penicilina.

O nome do nobre? Senhor Randolph Churchill.

O nome do filho dele? Senhor Winston Churchill.

Alguém disse uma vez que a gente colhe o que a gente planta.

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